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Faixa a faixa: Ombu disseca “Certas Idades”

Com produção musical de Kassin, o álbum traz uma nova cara à discografia do trio formado por João Viegas, Santiago Obejero Paz e Thiago Barros

Texto Isabela Guiduci
Foto João Rocha e Luisa Cerino

A música é uma manifestação poderosa para traduzir vivências e transformá-las em um espaço confortável de diálogo. Certas Idades, primeiro disco do power trio paulistano Ombu, representa uma possibilidade de novas conexões e reflexões. Lançado em agosto pela Balaclava Records, o álbum traz uma nova cara à discografia do trio formado por João Viegas, Santiago Obejero Paz e Thiago Barros. A produção musical é assinada por Alexandre Kassin, conhecido por trabalhos com grandes nomes nacionais como Caetano Veloso, Los Hermanos e Vanessa da Mata.

O grupo apresentará as músicas do disco no Balaclava Fest no próximo domingo, 11.12. Além deles, sobem ao palco Alvvays, Crumb, Fleet Foxes, Pluma, Jennifer Souza e Bruno Berle. A data também marca o lançamento da nona edição da Revista Balaclava com Deekapz e Jennifer Souza nas capas. 

“Adoro as músicas, as estruturas estranhas sem repetições. Propus a gravação em fita ao invés de tudo separadamente. Ombu é uma banda interessantíssima, João tem uma musicalidade muito particular, é um cantor incrível e seguro, toca bem baixo e teclado e faz arranjos excelentes. As baterias [de Thiago] têm uma assinatura própria, e as guitarras e clarinetes do Santi são cheias de ideias. Sou fã”, conta Kassin, responsável também pelo baixo em algumas das faixas. 

O disco representa uma nova fase do trio. Existe agora uma vontade de usar a música para se comunicar e estar em contato com o outro.  Mais ensolarada e despretensiosa, a sonoridade segue a proposta expansiva, onde os integrantes apostaram em arranjos de cordas e sopros, junto a diferentes instrumentos, como piano, órgão e mellotron. 

“A gente vinha falando sobre a nossa experiência, relacionamentos e como a gente lidava com nós mesmos. Só que agora também estamos trazendo o outro em perspectiva, em como lidar com o outro. A música reflete um pouco isso, e a sonoridade está um pouco mais para fora, com uma vontade de diálogo, uma vontade de se abrir, de estar em contato com as pessoas. Não partimos de um tema específico para compor as letras, elas só foram vindo e se agrupando. O discurso se construiu sozinho e é aberto a muitas interpretações”, divide Santiago. 

As doze faixas são encaixadas com enorme capricho, apresentando temáticas plurais, que perpassam por múltiplos significados. João Viegas reflete sobre a lírica das músicas: “Enquanto fazia as letras, sentia que estava escrevendo afirmações positivas. É mais sobre lidar com a tristeza do que a tristeza em si, um pouco sobre se redimir ou buscar aceitação. Acho que, se tem uma mensagem para passar, seria a despretensão”. 

Pare

João: A primeira feita para o disco, e acho que a que mais levei tempo para compor. Ela tem essa pegada Jovem Guarda, das bandas dos anos 1960.

Santiago: Buscamos o bom humor, esse refrão que você acompanha com a cabeça. Decidimos abrir o disco com ela, porque queríamos começar em um tom mais alegre e convidativo, contrastando bastante com o que havíamos apresentado nos trabalhos anteriores [os EPs Mulher (2015) e Pedro (2016)]. 

Prático

João: Uma música com um tempo complexo. Me inspirei no Rubens Adati, que tem um projeto que chama Meu Nome Não É Portugas. Ele tem um estúdio que é meio home studio, e me deu vontade de gravar uma bateria em casa, em um ambiente com muito eco. A gente gravou a bateria e fez essa música com uma pegada lo-fi. A melodia remete ao Clube da Esquina

Santiago: O Thiago quis fazer experimentações com as vozes. A gente se sentiu livre para trazer instrumentos que não estávamos acostumados. Gravei um synth em casa que acabou ficando para o disco. 

Tudo

João: É uma música que fala sobre um relacionamento que não está dando certo, e os meninos fizeram uma nova parte para a música.

Santiago: Fomos muito minuciosos nas escolhas das palavras. Acho que estávamos muito preocupados com a mensagem. 

Thiago: O que me chamou a atenção desde o começo foi a levada do violão, que é bem folk. 

Deu

João: É uma música meio cafona sobre coração partido. Fiz depois de escutar o álbum da Mitski, Be The Cowboy (2018), ele me inspirou a fazer rock. 

Santiago: Lembro que quando ouvi, fiquei com vontade de usar uns slides, até para remeter aos nossos primeiros trabalhos. No estúdio, me permiti experimentar, testei timbres diferentes e usei uma guitarra de 12 cordas, que combinou super bem com a levada do som.

Reclama

Thiago: Foi o primeiro som que compus para a banda. Nunca tinha parado para fazer letra, essa parei, escrevi, gravei uma demo – guitarra e voz – e mandei no grupo. Foi muito satisfatório finalmente botar um som na banda. E foi embaçado encontrar o caminho para seguir com ela. No começo, era bem mais pesada e depois virou um sambinha. Na época, estava ouvindo bastante João Gilberto e estava na brisa de fazer algo mais sussa. Sobre a letra, é uma meditação que fala de paciência e perdão em todo tipo de relação, seja amizade, relacionamento ou família. A letra é meio bad, mas com um instrumental para cima. No final, a Helo Cleaver entrou fazendo um backing vocal violento, de uma linha de voz que ela fez quando estávamos gravando. 

Mudança

João: Foi a última que fizemos. O Kassin sugeriu que a gente fizesse uma música parecida com “Deu” para equilibrar o CD. Peguei um riff de piano que fiz quando era criança, e botei em uma letra que fala sobre mudança. A escolha dos instrumentos e o arranjo aconteceram na hora da gravação. O Fernando Dotta tocou baixo nela. E decidimos colocar um banjo-violão. 

Santiago: Na minha opinião, é a música mais ensolarada do disco, onde a gente mais conseguiu explorar o lado leve e bem-humorado da banda.

O Ano 

João: É sobre Réveillon e fazer um momento de contemplação do ano que passou, aquela coisa clichê. Me lembra uma Jovem Guarda por conta do órgão e da harmonia. 

Pintar

Santiago: Foi uma música que surgiu antes da decisão de gravar o disco. Quando fiz, tive certeza que precisávamos gravar um disco. A gente foi até a casa do João, e foi quando abrimos para mostrar o que cada um tinha. Eu tinha “Pintar” voz e violão, e lembro de falar que eu precisava muito de ajuda para arranjar. Toquei a música quase chorando e estava emocionado porque ela fala sobre o processo de gestação da Eugênia com a Catarina, nossa filha. Quando voltei da turnê do Raça em 2019, fiquei sabendo que seria pai e foi uma loucura. A música trata sobre alguns medos do que ia vir com essa mudança na minha vida. 

Insolação 

João: Foi uma música sob demanda, surgiu de uma ideia que eu tinha no computador. Era um som meio maluco, meio quebrado. É uma música bem diferente do disco, é meio samba. 

Quando 

João: É uma das músicas mais introspectivas do CD. Fiz no banheiro, tocando violão e escutando o eco. Acho que ela marca esse estilo de produção virtual do disco. Foi diferente explorar um arranjo sem pensar muito no ao vivo, mas mais na sonoridade. 

Thiago: A progressão de acorde a partir da segunda parte é muito louca. Quando ouvi, achei o arranjo legal. E o final parece que traz um pouco de esperança. O som começa com uma aflição, mas mostra que existe luz no fim do túnel. 

Algo Novo

João: Fiz essa música na mesma vibe de “Tudo”, que era uma coisa acústica/eletrônica. A letra comecei a fazer com o Santi, e me baseei um pouco no Rodrigo Amarante. O Santi me ajudou a escrever e bolou uma frase genial: “Algo novo me aquece, te aquece, desde que virou o dia”. E acho que é a música que mais pesamos na parte instrumental, onde adicionamos arranjos orquestrais. 

Clima

João: Essa letra fala sobre eu querer me reaproximar do pessoal das bandas [Ombu e Raça]. Teve uma época em que eu estava distante, até saí delas por um tempo. E falei sobre isso num clima calmo e contemplativo. É uma música que tenta projetar a imagem de uma noite calma. Me imagino flutuando na cidade durante a noite como um sonho – tipo uma projeção astral.  

Santiago: Começou com o piano e a letra do João. Foi uma das músicas que mais me emocionou de cara e foi uma das últimas músicas que começamos a trabalhar. Nela, conseguimos usar tudo o que exploramos no disco, em termos de arranjos e composição. 

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