Um disco para entendidos: como fãs de vinil criaram espaços seguros para trocas e discussões

O que rolou nos últimos anos é apenas que saímos das entrelinhas e não há mais mistérios, “ninguém precisa ser entendido”, agora somos mais escancarados. E esse escancaramento pede respeito.

Texto Renan Guerra
Arte Yasmin Kalaf 

Em 2020, pela primeira vez, desde os anos 80, a venda de vinis superou a venda de CDs nos Estados Unidos, segundo dados da Associação Americana da Indústria de Gravadoras (RIAA, na sigla em inglês). A procura por discos de vinil cresceu em números num mercado que, cada vez mais, vê a sua receita diminuir, já que as vendas de mídia física, em sua totalidade, estão em queda. 

Com o combo pandemia, isolamento social, home office e a falta de shows ao vivo, colocar os vinis para rodar na sala de casa acabou se tornando uma prática ainda mais cotidiana. Com a impossibilidade de garimpar em sebos ou feiras, as trocas virtuais e os grupos on-line ganharam ainda mais trânsito, possibilitando vendas, trocas e até mesmo compras internacionais. 

Tudo muito bonito, tudo muito bom, porém qualquer um que já se deparou com um grupo de Facebook para trocas de vinil sabe que esse espaço não é nenhum mar de rosas. Machismo e homofobia andam ali ao lado dos sabichões, que sempre irão te dar uma aula sobre sons & gramaturas & prensagens históricas sob as quais você, tão despreparado, ainda não sabe. Por isso mesmo, as pessoas têm buscado espaços mais acolhedores, onde possam trocar e conversar sobre discos e músicas de forma mais solta. Um excelente exemplo é o grupo Amigues do Vinil.

Criado em setembro de 2020 por Gabriel Bernini, pesquisador musical e colecionador de vinil desde 2012, o grupo no Facebook surge após o fundador passar por situações homofóbicas em outros grupos. A intenção do espaço é potencializar vozes negras, femininas e LGBTQ+, algo que tem sido a tônica do grupo, que organiza discussões sobre lançamentos nacionais, acompanhamento de selos nacionais independentes, lives com artistas nacionais e compras coletivas de vinil. No final de maio, o projeto anunciou o seu braço como selo fonográfico com a prensagem do disco Janelas Imprevisíveis, da cantora, compositora e pianista paulista Flavia K. 

“O grupo Amigues do Vinil nasce das dores que eu senti, e dos perrengues que eu passei, nesses 10 anos de colecionismo, em especial por nunca ter me sentido representado ou defendido em outras comunidades”, conta Gabriel Bernini. O pesquisador lembra exatamente do momento em que tomou a decisão de criar o projeto: “No dia em que fundei o Amigues, havia sido chamado de ‘biba’ em um outro grupo, mas o administrador não tomou nenhuma atitude para me proteger. E aí eu tomei a decisão de que se nunca fizeram nada por mim, então eu vou fazer pelos outros! Portanto, o grupo nasce com a proposta de ser um espaço livre de intolerância e que age em favor das minorias sociais. Temos muitos gays e lésbicas no grupo, pessoas negras, que promovem debates raciais importantíssimos, pessoas trans… Os principais audiófilos do grupo são mulheres. O orgulho de ter juntado esse povo todo não cabe em mim.”

Uma das mulheres presentes no grupo é Carolina Martins Tenório, que também colabora como moderadora. Antes do Amigues, ela não estava tão por dentro dos grupos de Facebook: “acho muito interessante poder acompanhar a movimentação desse universo do vinil, e como o interesse cresceu de uns tempos pra cá, há muita gente nova, especialmente nestes tempos pandêmicos”. 

Carolina é do tipo de pessoa que vive em torno da música. “Eu frequentava shows, tinha dia que via três numa tacada só”, lembra da vida antes da epidemia. “Então nesse momento de reclusão necessária, tem sido da maior importância voltar para a minha coleção, não somente para curtir as músicas com mais calma, mas para cuidar mesmo, dar aquela limpada, reorganizar, como uma verdadeira terapia”.

Fã de Tulipa Ruiz, a colecionadora Carolina Martins Tenório tem versões autografadas pela artista.

Discos de vinil como companhia

Essa relação positiva com os discos é o que marca a coleção do casal Jackson Moura e Marco Gondim. Com aproximadamente 700 discos em casa, Marco explica que “ter muitos discos foi e continua sendo vital na pandemia. A rotina de descompressão é preparar um drink e separar os discos para escutar. Quase todo sábado a gente faz uma espécie de festinha pra dançar ao som deles.”

A coleção dos dois começou em 2009, um ano após se mudarem para São Paulo. “Compramos um da Siouxsie & The Banshees, um do Echo & The Bunnymen e um do The Cure, todos na feirinha de domingo no vão do Masp”, lembra Jackson. “Ouso dizer que tivemos a sorte de principiante: quando começamos a comprar discos, ainda era barato aqui em São Paulo, seja nas lojas da galeria ou importar da Amazon norte-americana – discos de US$10 com dólar a pouco mais de R$2.”

A coleção conjunta, óbvio, fez o casal vivenciar trocas musicais: Jackson fala que Marco é o responsável por sua aproximação com um ala da música brasileira. “Se hoje sou fã de Novos Baianos, Sérgio Sampaio, Gang 90 e Arrigo Barnabé é por conta dele. Celia, Olivia Byington e Paulo Diniz também entram nessa conta”, diz sobre os gostos do parceiro. Já Marco diz que se aproximou muito mais do punk – inclusive nacional –, hardcore e até do dancehall por causa de Jack. “Duas bandas que ele me apresentou e sempre escuto: Against Me! e Health. Mas acho que o girl group Shangri-las é o nosso ponto de intercessão mais forte”, explica. Em conjunto, eles dividem o gosto por post punk, gótico, shoegaze, indie, incluindo aí nomes como Sonic Youth, Pulp, R.E.M.,Tori Amos e PJ Harvey.

Estante da casa do casal Jackson Moura e Marco Gondim.

Música brasileira em alta

Jack e Marco trocam canções que fizeram parte de sua juventude e de suas descobertas. Esse caminho também marca a relação de Gabriel Bernini com os discos e com a música. “O meu início como colecionador tem tudo a ver com a minha saída do armário”, explica. “Eu nunca fui fã de divas pop, mas consequentemente quem me acolheu foram os gays indies, diferentões e alternativos. Nessa época, comecei a comprar vinil, em especial coisas da época do tropicalismo (como Mutantes e Gal Costa) porque a sensação de ter, em mãos, títulos que desafiavam a ditadura era muito boa”.

A coleção de Bernini tem um foco: cantoras brasileiras. “A minha paixão pela música brasileira, por sua vez, está ligada à valorização da nossa ancestralidade, brasilidade e história. Acredito que seja político consumir artistas brasileiros em um momento em que o consumo de música no Brasil, em especial entre os gays, é muito norte-americano. Adoro somar com as nossas artistas, inclusive financeiramente, e amo resgatar as suas histórias”, diz sobre a sua coleção. 

Os discos preferidos do colecionador Gabriel Berrini.

“Hoje em dia, além da música contemporânea, sou apaixonado por discos dos anos 80 e 90 que são independentes: trabalhos financiados pelos próprios artistas com circulação limitada”, conta Gabriel. “Gosto de criar o meu próprio hype, portanto, nessa onda, meus tesouros são os meus quatro discos do selo Laborarte. Dois da cantora Rosa Reis e dois de espetáculos folclóricos gravados ao vivo – Te Gruda no Meu Fofão e Cacuriá de Dona Teté.” Para quem não conhece, o Laborarte é um casarão cultural, localizado na cidade de São Luís do Maranhão, fundado em 1972 e liderado por mulheres negras.

No Amigues do Vinil, Gabriel já organizou lives com cantoras como Letrux, Livia Nery, Silvia Machete e Bruna Mendez. Além disso, o grupo está sempre atento aos lançamentos nacionais, sejam de forma independente quanto nos clubes de vinil como NOIZE Record Club e o Três Selos. Os dois projetos, lançados na década passada, são fundamentais no mercado porque criam conexões entre os jovens ouvintes e artistas com o universo do vinil. Por exemplo, nomes em ascensão, que teriam dificuldade de fazer um lançamento, já ganharam belas edições em vinil. EM 2020, Rito de Passá, estreia de MC Tha, foi lançado pelo NRC, e o recente Do Meu Coração Nu, de Zé Manoel, saiu pela Três Selos.  

Carolina, assim como Gabriel, também é do time dos lançamentos nacionais e está sempre em busca de completar as suas coleções dos artistas de que é fã. “Como sou colecionista, tenho as minhas coleções do Metá Metá, Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci e Passo Torto, e que de jeito nenhum abriria mão!”. Ela leva isso tão a sério que só do disco Rastilho, de Dinucci, possui três versões: uma lançada pela Três Selos e duas da Mais Um Discos. Tanto Gabriel, quanto Carolina, até nos revelaram alguns desejos que eles têm para suas coleções, porém o mundinho vinil BR pode ser inflacionado e por isso esses itens podem não aparecer por aqui.

Aliás, Marco inclusive falou que participa de alguns grupos de Facebook para pegar dicas de conserto e manutenção da vitrola, mas também para ficar de olho no preço dos discos que estão se valorizando. Mas ele avisa: “detesto porque é um ambiente machista, homofóbico, reacionário e com muito pouca abertura a sair dos campos do jazz ou do classic rock”. Aquele mesmo cenário que falamos antes, né? 

E quando se fala na questão dos valores e das compras, há também esse setor inflacionado dos produtos na internet. Há preços surreais em sites como o Mercado Livre, por exemplo, e mesmo dentro dos grupos é comum ver discos lançados recentemente com preços módicos de 500 a 1000 reais. Nos últimos meses, no seu stories do Instagram, a cantora Letrux falou que deve lançar uma segunda prensagem de seu disco Letrux em noite de climão e disse para as pessoas não pagarem mais de mil reais em um disco pois, segundo ela, esse preço é uma loucura. Certíssima! 

Novos selos, outros lançamentos

Nessa onda de novas prensagens, além dos já citados Três Selos e NOIZE, há outros pequenos selos fazendo lançamentos para prestar atenção. A Balaclava Records já lançou prensagens de nomes como Apeles e Giovani Cidreira, e viu suas edições de Violeta, do Terno Rei, se esgotarem em poucas horas. A Circus Produções é outra que lança discos de Negro Leo, Ava Rocha e Arthur Nogueira, ao mesmo tempo em que relança discos importantes de gente como Ná Ozzetti e Tom Zé. 

Um interessante exemplo desse movimento é a Bolachão Discos, sob curadoria de Leandro Pexe. Colecionador desde que ganhou o LP Xou da Xuxa, lá nos anos 80, o pesquisador sempre viveu entre os discos da família, depois acabou trabalhando em um sebo e numa dessas megastores de shopping, sempre envolto em música. Depois, mesmo ficando afastado alguns anos desse mercado, a coleção não parou: hoje ele tem em torno de 5 mil discos!

Para fazer esses discos circularem, ele criou a Bolachão como um perfil de Instagram para venda. “A proporção da Bolachão foi crescendo e com os pedidos dos clientes, eu me incumbia de ir atrás para eles”, conta Pexe. Com a chegada da pandemia, sem a possibilidade de sair à caça, Leandro começou a vender alguns discos novos, como reprensagens de clássicos da MPB e lançamentos de nomes como Pitty. 

As movimentações levaram Leandro e o seu marido Vinicius Cardoso, a se questionarem sobre a possibilidade de lançarem títulos próprios. Assim nasceu o selo Bolachão Discos, que já lançou trabalhos como o Indômita, de Aline Wirley (ex-Rouge), o Remix Século XXI, de Adriana Calcanhotto e o recente Minha Voz Fica, de Zélia Duncan e Pedro Franco tocando Alzira E. No catálogo, consta também, o lançamento de Boas Notícias, disco da Xuxa de 1997 que só havia sido lançado em CD. Leandro tinha que celebrar, de algum modo, a artista que aflorou nele a paixão pelos vinis.

“Estamos aprendendo com a burocracia, mas estamos nesse universo em busca dos títulos que a gente acredita e estamos muito felizes. Lançamos o primeiro produto em outubro do ano passado, que foi a Verônica Ferriani, e desde então a gente tem conseguido títulos bastante interessantes e fortes para o selo”, explica Leandro.  Atualmente, a Bolachão está trabalhando no lançamento do Les 5inq, do Rouge, álbum de retorno do grupo e que ainda não tinha nenhuma edição física.   

Um disco para entendidos 

Entendidos, lá nos anos 70, era gíria para se referir aos gays. No encarte de Araçá Azul, Caetano alertava: “um disco para entendidos”. Nas entrelinhas, a MPB sempre se escreveu pelas mãos e vozes de artistas negros, mulheres e LGBTQ+ – algo que também pode se estender para a música mundial. Além disso, os ouvintes sempre foram diversos, tanto que, por trás dos fã-clubes estão muitas mulheres e homens gays. 

O que rolou nos últimos anos é apenas que saímos das entrelinhas e não há mais mistérios, “ninguém precisa ser entendido”, agora somos mais escancarados. E esse escancaramento pede respeito. Um público diverso consome e produz em torno do universo dos vinis e, por isso, não faz sentido ainda haver espaços que segregam ou tornam ainda mais difícil o acesso a esse tipo de conteúdo e consumo. 

Há gente comprando e ouvindo vinis aos montes e, por isso mesmo, há muita gente criando, desenvolvendo, trocando e pensando música. Que sigamos assim!