Sobre um SMS cujo único conteúdo era a palavra “bruxismo”

Três anos de agressão não tinham sido, aparentemente, suficientes. Desde nosso turbulento término, não tinham sido poucas as mensagens enviadas com o simples intuito de me fazer mal.

Texto Giovana Feix 
Foto Roberta Schioppa

Texto publicado pela primeira vez na quarta edição da Revista Balaclava, em abril de 2019.

Fevereiro de 2019

A forma como me tocava deixava evidente: ela sabia que eu estava nervosa. A forma como falava entregava tudo. Cada palavra era pronunciada do jeito mais lento que já ouvi — e  com o tom de voz que geralmente usamos pra falar com uma criança assustada.

O fato de eu ter desmarcado em cima da hora nosso último encontro devia parecer uma denúncia a seus olhos. Ela enxergava minha fobia àquela situação — e à possibilidade de acabar descobrindo mais coisas doentes em mim. Fobia àquela cadeira e a todo o tempo que eu passaria deitada nela, desconfortável, com a boca escancarada, a baba acumulada no fundo da garganta e a língua ali, sem saber direito a que serve.

A Dra. Sandra sabia que cancelei a última consulta após uma crise de ansiedade   e, por isso, queria me deixar o mais confortável possível. Depois de quase dois anos de depressão — e de uma higiene bucal consequentemente preguiçosa —, eu estava de fato com medo do que poderia descobrir ao visitá-la.

“Não, cárie não”, ela disse com aquele tom de voz. “Mas seus dentes estão bem desgastados, viu. Você deve estar rangendo eles à noite — e não deve ser pouco!”.

Julho de 2017

O término do relacionamento abusivo em que estive por cerca de três anos completava alguns meses de aniversário na noite em que saí em meu primeiro date do Tinder.

Eu estava surpreendentemente confiante — gata, vestindo a saia que mais favorece minha bunda e, bem, levemente alcoolizada. O moço do Tinder, por sua vez, estava flertante e levemente corado (não sei se pela bebida ou por estar, de fato, um tanto quanto flertante).

Papo foi, papo veio. Flerte foi, Flerte veio. Eu conseguia praticamente sentir a cabeça dele se virar pra minha bunda, quando me levantava para ir ao banheiro. Tudo estava indo bem até que, de repente, vimos que o bar ia fechar. 

Lembro de olhar meu celular pra ver a hora — uma da manhã. O álcool tinha deixado o mundo meio nebuloso e cor-de-rosa, mas, nesse momento, levei um susto: na tela do meu Moto G5, um número grande demais de notificações — principalmente para aquele horário.

Deixei o moço corado do Tinder confuso por um instante enquanto tentei, um pouco menos nebulosa e cor-de-rosa, entender a situação.

Ah.

É claro.

Era ele.

Três anos de agressão não tinham sido, aparentemente, suficientes. Desde nosso turbulento término, não tinham sido poucas as mensagens enviadas com o simples intuito de me fazer mal.

Na noite do meu primeiro date do Tinder, não foi diferente. O susto que me tirou da nuvem cor-de-rosa era um conjunto de várias mensagens de texto, em que ele enumerava todos os defeitos que via em minha personalidade. Cada SMS, uma falha — como uma poesia horrível & escrita por um imbecil.

Sensível demais,

Chorona,

TPM,

Nervosinha,

Irritada,

Mal-educada,

foram alguns dos insultos que li por primeiro. O último entre todos eles, no entanto, foi o que mais me marcou. A mensagem tinha uma única palavra:

Bruxismo.

Tive que rir — deixando o moço corado do Tinder ainda mais confuso. Como será possível, lembro de pensar na minha cabeça alcoolizada, que meu ex venha criticar em mim um problema que ele mesmo me causou?

Março de 2019

Já são quase quatro da manhã, está quente demais e tudo que eu queria era dormir. Minha camisola está toda enrolada, de tanto eu virar de um lado para o outro, e minha bunda está de fora, gelada apesar do calor.

É minha segunda noite usando a placa de bruxismo da Dra. Sandra — e, bom, vou admitir: ela é meio esquisita. Já são, sim, quase quatro da manhã, e — apesar de estar atualmente namorando um cara maravilhoso que conheci, mais adiante, também no Tinder — estou sozinha e insone na minha cama.

Cenas dos últimos anos da minha vida meio que dançam e se misturam dentro da minha cabeça, e o escuro do quarto faz com que tudo pareça real, confuso e, pra ser bem sincera, horrível.

Penso no quanto gostaria que bruxismo significasse alguma coisa maneira — algo a ver com bruxas, com o quanto elas são fodas e não têm de usar plásticos na boca para dormir em paz.

Viro pro lado pra tomar uma água e vejo ele: meu Rivotril. Ainda com a placa de bruxismo-que-não-tem-a-ver-com-bruxas na boca, engulo um comprimido. Respiro fundo, fecho os olhos e penso que é isso. É isso que dá — pelo menos por enquanto.

Pouco tempo depois, consigo enfim dormir.