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Winter:
“2020 acabou com qualquer ilusão que eu tinha da indústria da música”

No ano passado, a artista curitibana, radicada em Los Angeles desde os 18 anos, lançou  Endless Space (Between You & I), o terceiro disco da carreira.

Por Mariana Marvão
Foto Laura Moreau

2020 foi um ano decisivo na vida de Samira Winter. A artista curitibana, radicada em Los Angeles desde os 18 anos, lançou um novo álbum, Endless Space (Between You & I), o terceiro disco da carreira. O trabalho conta com letras escritas entre 2016 e 2018, sendo finalmente gravado e finalizado em 2019. Transportando o ouvinte ao mundo do dream pop e do shoegaze, as composições funcionam como um convite para explorar o universo que habita o imaginário da artista.

“Sinto que a estética de Endless Space está bem mais mágica, surrealista e astrológica”, diz Samira em entrevista à Revista Balaclava. Em algumas músicas, como “Healing”, os sons remetem aos barulhos da mesa de controle de uma nave espacial. Já em “Bem no Fundo”, parceria com Dinho Almeida, do Boogarins, os sintetizadores nos levam para o mundo nostálgico dos videogames, enquanto a voz da dupla expõe a narrativa brilhante e cheias de sensações à flor da pele.

“É muito engraçado porque quando eu criei a melodia, não tinha me ligado em Zelda. Depois, várias pessoas vieram me falar que lembrava a trilha sonora do jogo, mas não foi algo intencional. Eu jogava quando tinha 10 anos na casa da minha amiga, então talvez isso ficou gravada em algum lugar do meu subconsciente.” – Winter

A presença marcante de elementos eletrônicos no registro também não é mera coincidência. A artista compartilha que tem escutado bastante EDM, por sentir que é um estilo mais livre, sem as formalidades do indie rock. Sua vontade atual é produzir mais músicas nesse estilo e colaborar com mulheres DJs, como a Peggy Gou.

O seu plano para mais colaborações não ficam restritos ao âmbito da música, e se estende também para outros formatos de arte: “Adoraria colaborar com alguém do cinema para fazer uma trilha sonora, produzir para um filme surrealista. E adoraria trabalhar com pintores e escritores para fazer arte juntos, e trazer assim, ainda mais o surrealismo e o experimental para o dream pop que eu já faço.”

A artista, que lança músicas quase todos os anos, enxerga o trabalho como uma extensão de sua personalidade. “É uma necessidade estar sempre criando, sempre trabalhando. Na verdade, meu trabalho é tudo o que eu faço, tudo que eu assisto, o que eu converso, o que eu leio. Criar é a minha parte favorita, me vejo muito mais como uma songwriter do que cantora ou guitarrista”, explica.

Aos 29 anos, já viveu diferentes momentos e não tem medo de abraçar todas essas referências. “A Winter já passou por várias fases, faz parte da identidade estar sempre mudando. Eu era mais do indie rock, mas hoje as minhas bandas favoritas são My Bloody Valentine e Cocteau Twins, também escuto muito música experimental e Ambient Music”, explica sobre o momento atual.

CONVITE A INTROSPECÇÃO

A data de lançamento do novo disco precisou ser mudada depois do início da epidemia. Lá em Los Angeles, a artista mantinha uma agenda bem agitada de shows, porque mesmo quando não se apresentava, ia assistir apresentações de amigos ou de bandas que gostava. No geral, o palco e o espaço em volta dele sempre foram sua zona de conforto, até que a pandemia trouxe Winter de volta para casa.

No início de 2020, contava com algumas datas marcadas, assim como um show no SXSW: “Levou um tempo para realmente assimilar as coisas. Aos poucos, a gente foi se tocando que não ia rolar turnê e a realidade caiu na minha frente. Para mim, o maior baque foi perceber que não iria tocar ao vivo por meses.”

Como quase todo mundo, Samira se isolou em casa, algo que não acontecia com frequência. Finalmente com tempo para si, pode então começar um processo de redescoberta dos seus gostos porque a sua vida social também era muito ligada a cena musica. Com o passar do tempo, também foi se acostumando com a nova realidade. “Acho importante para qualquer artista ter seu tempo sozinho para se reconectar, carregar as baterias e para criar ideias novas”, comenta a transição de rotina.

Com o álbum adiado para o final de julho, e com tempo de sobra, ela aproveitou para ver filmes, ouvir novas bandas e descobrir artistas. Dois filmes que a marcaram profundamente são “Valerie and Her Week of Wonders”(Valerie e a Semana das Maravilhas”, de Jaromil Jireš, e “Daisies” (As Pequenas Margaridas), de Věra Chytilová. Os longas são grandes obras do cinema surrealista tcheco.

Em especial, ainda sobre o surrealismo, movimento estético do início do século 20, podemos falar que a escola reverbera com o cerne das investigações da compositora. Com influências dos estudos de Sigmund Freud, o movimento mostra a importância do inconsciente na criatividade do ser humano, considerando que por meio dos sonhos, o homem estava livre de toda a crítica, da censura e principalmente da lógica. Então, bebendo do escapismo, Winter tenta se aproximar do mundo onírico, para se desapegar da consciência limitante e encontrar reflexões extraordinárias, mesmo em meio a um período tão obscuro.

Entre o turbilhão de acontecimentos que pautaram o primeiro semestre de 2020, um fato em especial foi marcante na vida de Samira. Desde que vive na Califórnia, acabou tocando e lançando trabalhos com a label indie Burger Records. Depois de uma série de alegações de assédio e comportamento predatório envolvendo a organização do selo e as bandas do casting, a Burger foi encerrada no final de julho.

Esse ano acabou com qualquer ilusão que eu tinha da indústria da música. Pessoalmente, não tive uma experiência ruim com eles mas tudo faz sentido, porque com certeza já vi coisas problemáticas. Comecei a ir atrás das minhas memórias para olhar para os meus traumas, e percebi que na época tinha deixado passar coisas que eram erradas, muito messed up, explica sobre a sua relação com a gravadora independente.

Há alguns anos, toda a cadeia da música vem sendo repensada e finalmente os ídolos estão sendo desmascarados. “O rock e o indie tem certos role models. Agora precisamos reprogramar e reavaliar os nossos heróis. Porque isso acabou, a gente precisa dar um reset na cultura do homem do rock. Não dá mais, ninguém quer estar em uma cena que é sexista, racista e homofóbica”, desabafa.

Revisitando sua própria trajetória no circuito independente, consegue lembrar com detalhes algum momentos desconfortáveis. Por exemplo, quando estava no festival Desert Days, e sua baixista teve problemas técnicos: “O cara do som falou no microfone para todo mundo ouvir ‘você não sabe o que está fazendo’. Na hora, disse ‘problemas técnicos’, mas foi muito embaraçoso.”

Além de cantar, tocar, produzir, Samira está envolvida em tudo que faz parte do projeto, isso significa ficar na banquinha de merch ou lidar com os técnicos de som e donos de casas de show. “Pode ser uma micro agressão ou ser algo realmente predatório. O choque do trauma é muito pesado na hora, você nem sabe o que pensar. Eu sou o tipo de pessoa que precisa de tempo para processar, então tem gente que sabe o que falar na hora, mas tem coisa que te surpreende tanto, que você não sabe como reagir”, conta sobre as experiências ruins.

Por isso, a importância do fim do selo representa a vontade de criar um futuro mais acolhedor. Quando as apresentações voltarem, Samira espera que as coisas sejam diferentes: “Os shows tem que ter mulheres, presença queer, inclusividade social, porque tudo isso está relacionado. Quando é só homem cis branco, não tem espaço pra ninguém.”

A mudança deve acontecer de forma prática, como priorizar artistas fora do “padrão”, e também subjetiva, no sentido do que as pessoas buscam consumir. “Vai mudar as nossas inspirações, o tipo de música que está sendo criada, e a gente precisa muito dessas histórias”, diz sobre as suas apostas para o indie nos próximos anos. ☺

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