O que você precisa saber para entender a mixtape Caro Vapor/ Vida e Veneno de Don L (2013)

Amor e distopia (ou amor distópico) são temas recorrentes: a morte inevitavelmente aparece como motivadora da vida, e a consciência sobre a finitude da existência é o que nos permite experienciá-la por completo, ou como o próprio rapper gosta de definir, “no limite”.

Texto João Victor Medeiros
Foto Autumn Sonnichsen

Ainda adolescente, eu passeava pela limitada biblioteca de discos disponível no meu Nokia, que não chegava nem a ser um smartphone. Kendrick Lamar havia lançado good kid m.A.A.d. city (2012), que já tava decorado por mim de ponta a ponta, rima por rima. As mixtapes de J. Cole e Watch The Throne (2010) também batiam muito nos fones, mas nesse dia, eu estava em busca de algo novo. Foi quando decidi dar o play em um projeto recém-lançado e que eu havia baixado através de um link disponibilizado pela VICE Brasil. Esse disco era, na verdade, uma mixtape: Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L (2013).

“A estrada já tem que valer a viagem, porque o destino é sempre… incerto”, reflete o rapper na música que dá nome a mixtape. No contexto da obra do artista, a estrada é a própria travessia que realizamos durante a vida (viagem). Naquele dia em específico, meu destino final era o Rio de Janeiro, mas o disco que escolhi para me acompanhar na estrada aos poucos me convenceu a experimentar e a buscar a vida com mais ímpeto e paixão. E como bem pontua o personagem Riobaldo, de Grande Sertão, Veredas: “quem escolhe a busca não pode recusar a travessia”.

Se a história de Don L poderia ser roteiro para um filme de Karim Ainouz, a mixtape Caro Vapor inspiraria diversos episódios da antologia de Love, Death, Robots, da Netflix. Amor e distopia (ou amor distópico) são temas recorrentes na mixtape de Don L. A morte inevitavelmente aparece como motivadora da vida, e a consciência sobre a finitude da existência é o que nos permite experienciá-la por completo, ou como o próprio Don gosta de definir, “no limite”. Como as figuras da criança e do leão na filosofia de Nietzsche, o rapper diz sim à vida e a busca pela liberdade.

“Nois tudo vive para morrer mas luta pela vida”, ele exclama em “Morra Bem, Viva Rápido”. Com um ímpeto semelhante ao de Kanye West em “Through The Wire”, Don L escreveu a potente introdução da mixtape em uma cama de hospital, após um grave acidente. “Essa letra é um reflexo de tudo o que eu estava sentindo: impotência, tédio, insatisfação e a vontade de trabalhar muito para alcançar todos os meus objetivos”, ele diz em entrevista à Rolling Stones

Como Don L afirma em “Nem Posso Dizer”, “para quem provou do amargo, o açúcar é mais doce”. Para quem (quase) prova a morte, a vida fica bem mais interessante. Além da profundidade e força temática, a música é um primor em técnica de rima e, até hoje, um dos raps mais bem escritos em língua portuguesa. Don L rima quase que canção inteira em um mesmo esquema multi silábico e ainda preenche espaços entre as linhas com diversas rimas internas, também multi silábicas. Muitas dessas rimas só são possíveis porque Don L consegue extrair o máximo do sotaque cearense para flexionar a pronúncia de palavras que, em teoria, não rimariam. Simplesmente extasiante.

“Não é a vitória que cê quer? Então brin/da

Peça, lute com fé, irmão, vi/va

É, esse mundo tem mulheres tão lin/das

Que/ro-as, tudo em pé/ro/las, fil/ma

Rosas em Je/ri, fé/rias em Pi/pa

É sim, no estilo né, fí? Vi/da
É, esse mundo tem cores tão vi/vas

Porque seus sonhos são todos tom cin/za?”

Nesse primeiro momento do disco, a existência é abordada pelo cearense através de uma perspectiva de celebração. As batidas têm uma vibe lisérgica, como em “Rolê dos Loko” – rap com um flow recheado de deboche e auto-estima – até os versos de “No melhor estilo” com produção de Papatinho, que nos leva em mais uma noite em festas na companhia de Don L, passando ainda pelo Blues de “Doce Dose”. É muito repertório. Importante salientar que o aparato técnico de Don L sempre está a serviço dos temas abordados. Bota um drink no gelo para um dos melhores MC’s.

O amor (e suas nuances) entra em cena com o jazz-rap suave de “Depois das Três” e continua nas próximas seis faixas. No visual, temos o magnífico trabalho de Autumn Sonnichsen, que assina a capa da mixtape e a maioria das fotos que acompanham cada música no YouTube. Especialista em retrato feminino, a norte-americana já fotografou para a Revista Trip e Playboy Brasil, e suas fotos guiam o ouvinte para imaginar com mais detalhes as cenas narradas pelo MC. Esse trabalho definitivamente me influenciou quando comecei a praticar fotografia, três anos após ouvir o disco. 

“Slow Jam” é aquela ligação para um amor antigo e uma das canções mais saborosas do disco. E o que falar de “Beira de Piscina (Remix)”? Especialista em “feeling”, Don L simplesmente tomou a música do Emicida para si. Fica a dica: a não ser que você seja o Mano Brown, nunca deixe Don remixar o seu som. “Cê quer rimar assim? Inaconselhável, irmão” — ele adverte em “Caro Vapor”. A música serve como interlúdio antes da chegada do curto, porém mais intenso capítulo do disco: a destruição e a distopia.

Os cerca de doze minutos entre “Denso” e “Gasolina e Fósforo” são de tirar o fôlego. São boas músicas por si só, mas quando ouvidas em conjunto, têm impacto nuclear. Na primeira, o rapper fica dividido entre a voz sedutora da personagem “Vida Premium” (que representa uma vida luxuosa) e a voz conselheira chamada de “Nego Sub”, que o aconselha sobre o preço caro e as consequências de ser seduzido por essa vida. “Eu tenho a solução pra você, Don! Me vende! É, seja meu cafetão, Don! Me vende nessa rima, depois cê me tem como quiser. Prometo que vai compensar”, negocia a personagem da Vida Premium. “Cafetina Seu Mundo” me fez querer mais de mim e mais para mim. “Encarei o espelho e a pergunta que veio foi: o futuro era só isso memo? Tá de sacanagem!” Nessa mixtape, Don L é como a gente imagina que um espião super secreto seria, e “Sangue é Champanhe” intensifica esse sentimento: ele conhece perfumes sírios e sai com mulheres que usam vestidos de tecido egípcio. “Quem lembra do sangue derramado admirado com a pirâmide de Quéops?” Finesse, vida premium.

Oficialmente, a mixtape termina com “Enquanto Acaba”, uma canção que poderia estar em conjunto com as demais românticas do disco. Sendo assim, soa como uma faixa-bônus após a destruição completa em “Gasolina e Fósforo”. A música abre com um verso de Nego Gallo e progride com a revolta de Don L (#fodase) que, mais uma vez, busca pelo melhor da vida. Ele quer sossego (“Para sua fábrica de armas para eu aposentar a minha”), mas enquanto isso não acontece? Bota para foder, chapa. “Muda minha vida que eu mudo meus modos”. Ouvi essa mixtape com 17 anos e ela teve papel fundamental em quem me tornei. Faltava auto-estima para buscar sonhos maiores ou até mesmo para me relacionar afetivamente. Havia muito medo da vida e a implosão que o rapper propõe em Caro Vapor/ Vida e Veneno de Don L foi importante para transformar esse medo em paixão e aprender que há mais do mundo lá fora. Esse disco rodou nos fones por muito tempo e eu só tive outro impacto assim com um trampo de rap nacional em 2016. Como nem tudo na vida é destruição, um tempo depois foi necessário juntar as ruínas da distopia para construir os castelos — mas isso fica para uma próxima resenha.

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