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O que você está escutando agora? Pauline Oliveros além do tom e do tempo

Para a acordeonista e compositora estadunidense, escutar é diferente de ouvir, então a “Escuta Profunda” representa uma prática centrada na compaixão e é uma forma de comunicação não-violenta.

Texto Pedro Y La Máquina
Foto Reprodução/ Mills College

O que você está ouvindo agora? Calma, não estou me referindo ao seu álbum favorito lançado pela Balaclava Records, ou a sua playlist especial para leitura – mas, sim, aos sons para além dos seus fones de ouvidos (se estiver com fones). Então,  deixe-me tentar, mais uma vez:  O que  você pode escutar enquanto lê cada palavra deste texto?

Você  poderia distinguir os sons mais próximos e mais distantes? Conseguiria se concentrar em apenas um destes sons? Ou seria capaz de ignorá-los todos? Você também já esteve com seus fones de ouvidos no volume máximo e mesmo assim não estava realmente a ouvir nada?

Ressoa no vale a sirene do exército através das torres das igrejas que estão sempre a dobrar seus sinos especiais, porque é São João del-Rei em Minas Gerais. Eu acho que Pauline Oliveros (1932 – 2016) adoraria dar um rolê por aqui. Posso imaginá-la ao lado da sua companheira Ione, cercada de amor, sentada no Bar do Pantanal, depois de uma expedição pelos sinos da cidade.

Acredito que elas não ficariam surpresas, porém,  naturalmente indignadas, com o fato de existirem até hoje apenas sineiros homens. Eu gostaria de presenciar a reação da Pauline ao ter conhecimento de uma antiga lenda que conta que se alguma mulher ousar badalar um dos santos sinos, o sino racha e a mulher engravida. Um fato curioso é que certa vez uma jovem estudante de jornalismo me contou já ter badalado algum destes sinos – e o sino não rachou e ela não engravidou.

Quem já ouviu algo a respeito da musicista Oliveros sabe que ela estaria tão interessada nos sinos quanto nas cigarras da Serra São José. Talvez até mais nas cigarras, afinal,  ela desprezava velhos padrões conservadores que bloqueiam a participação das mulheres. Avesso disso, Pauline Oliveros é símbolo do protagonismo e inclusão das mulheres LGBTQI+ na arte e na vida, dos anos 60 até hoje – reverberando no tempo com longos ecos-delay.

“Fui marginalizada por pensar diferente, então tive que criar minha própria cena” – Pauline Oliveiros em entrevista ao KQED Spark

E o principal fator que diferencia a cena da Pauline de qualquer outra cena é a escuta. Para entender isso é preciso aprofundar no conceito de Escuta Profunda. Porque para ela, escutar é diferente de ouvir. O ouvido está sempre a enviar informações para o córtex auditivo, no entanto, a atenção do córtex auditivo pode ser ligada e desligada.

O som é a sensação, captada pelos ouvidos, da propagação da vibração das partículas no espaço-tempo. O ouvido é um microfone-funil sem tampa. Você pode fechar os olhos para não ver o que não quer ver, mas não pode fechar os ouvidos para não ouvir a música que odeia. Seus problemas acabaram!

Para Oliveros, Escutar significa , resumidamente, interpretar o que o ouvido envia para o cérebro. Isso, acoplado ao termo Profundo, se torna muito mais complexo. Ser capaz de compreender os trajetos e sequências das formações sonoras, musicais ou não-musicais, seus detalhes e contexto. Siginifica “conectar-se ao ambiente e além”. Escuta Profunda é uma forma de meditação. 

Empoderar as pessoas dessa tecnologia humana, quer dizer, “a consciência do poder da escuta”, seria o principal legado de Pauline, segundo a compositora Luisa Puterman . Mas isso não vem só dela, completa Luisa, vem de toda uma tradição interdisciplinar, de cantos e mantras indígenas.

No velho Tao, por exemplo, você pode encontrar citações sobre os sentidos e particularmente sobre a escuta. Até mesmo a Bíblia fala dos ouvidos – porém, na maioria das vezes inspirando um não-escutar. Na introdução do seu Livro “Escuta Profunda”, Pauline cita os “Five Mindfull Trainings” do monge zen-budista, Thich Nhat Hanh.  Esta é uma escuta centrada na compaixão para restaurar a comunicação, a fim de aliviar o sofrimento e trazer felicidade a todos os seres. Isso mesmo, também tem a ver com uma espécie de comunicação não-violenta.

“Fui uma criança fascinada com o som que vinha do rádio – não os programas musicais, mas a estática e os zunidos” – Pauline Oliveiros em entrevista ao TapeOp

Se Pauline carrega milenares tradições nas suas técnicas de Escuta Profunda, ela também às “atualizou” com a tecnologia do nosso tempo. Fazendo música eletrônica experimental muito antes do Kraftwerk. Não é exagero dizer que sua biografia está cravada nas raízes da música eletrônica, ao lado de nomes como o de Stockhausen.

Oliveros se mudou para San Francisco em 1952 para estudar música, e teve colegas como Steve Reich e La Monte Young. Ainda nos anos 50, ela criou sua própria maneira de fazer música eletrônica, enquanto a maioria fazia colagens de fita, ela usava equipamentos de teste de áudio, osciladores e gravadores de rolo. Suas primeiras experimentações culminaram na gravação de “Bye Bye Butterfly” e no texto “Tape Delay Techniques for Electronic Music Composition”. Nesta época, ela também ajudou a fundar o San Francisco Tape Music Center.

Não foi por acaso que apenas nesta altura do texto citamos alguma de suas gravações, como podem perceber, Pauline Oliveros é muito mais que uma compositora, e suas criações vão muito além de uma discografia. Mais do que produzir coisas para as pessoas ouvirem, Pauline modifica a maneira como as pessoas escutam. E desta maneira, dialeticamente, também modifica a maneira como as pessoas produzem sons.

O seu principal instrumento musical é o acordeom. Enquanto para nós aqui no Brasil, o acordeom, ou a sanfona, é um instrumento utilizado apenas na música folclórica ou popular, Pauline expandiu absurdamente as possibilidades e vozes deste instrumento, com a utilização de pedais de efeitos e até mesmo softwares, muitas vezes desenvolvidos com sua participação. Mas ela não era uma programadora: “Tenho surfado em tecnologia há 50 anos (…) Mas eu não sou uma tecnóloga, nunca fingi ser uma, mas estou usando, e isso é diferente de alguém que está hackeando. Eu hackeio conceitualmente”, disse numa entrevista para a Bomb Magazine em 2009.

Nos anos 90, ela já usava vídeo- chamadas e internet para tocar com pessoas ao redor do mundo. Pauline já fazia música online ao vivo antes mesmo da gente ouvir falar em lives e streaming.

Conversando com a também musicista e educadora musical Bel Medula, que deve ser uma das poucas ou única formada pelo instituto Deep Listening aqui no Brasil, Bel destacou a relação de Pauline com Donna Haraway, autora do Manifesto Ciborgue. Hoje percebo como, sob algum ponto de vista, Pauline personifica as ideias de Donna e Donna sistematiza as práticas de Pauline! 

“Através de Pauline Oliveros e da Escuta Profunda, finalmente entendi o que é harmonia… É sobre o prazer de fazer música” – John Cage

Pauline foi uma educadora incansável, no sentido mais dialético possível: daquele que a educadora está sempre a aprender com a educanda – para citar nosso Paulo Freire. Em todas suas entrevistas, ela insistia que ainda estava aprendendo e se aprofundando cada vez mais na sua escuta, e assim também aprofundando a escuta das pessoas ao seu redor. Ela passou a maior parte da sua vida como educadora em universidades dos Estados Unidos e também com seus cursos itinerários em vários países ou online, que existem até hoje, ministrados pela sua eterna companheira Ione.

Apesar de contemporâneas, Pauline e Paulo Freire nunca se conheceram, talvez apenas noutra dimensão. Porque, até onde investiguei, Pauline nunca passou pelo Brasil, mas pelo Uruguai e Argentina, sim, devido à uma parceria com a banda Reynols (você precisa conferir os títulos das faixas do álbum resultado desta parceria). Mas será que isso é suficiente para entender por que Pauline é tão desconhecida por aqui?

Indagando a Carolina da Editora Dobra (possivelmente a única editora latino-americana que já publicou uma obra da Pauline Oliveros até hoje), sobre a popularidade da Pauline aqui no cone sul, ela me disse: “há o problema de sempre para as mulheres: em geral, elas são ultrapassadas pelos homens simplesmente por uma questão de gênero.” Além disso, “esses tipos de técnicas, utilizadas por Pauline, não são suficientemente valorizados, pois estamos em uma era super científica e tudo o que tem a ver com outros níveis de percepção não se enquadra em uma forma válida de conhecimento.”

E como fazemos para dar mais visibilidade ao trabalho de Pauline nos nossos espaços? “Em princípio, traduzam seus textos, ouçam suas músicas e divulguem. Embora a Escuta Profunda parta da premissa de técnicas utilizadas para compor música, vai mais longe: são, antes, exercícios de escuta que servem à vida em geral”, completou Carolina.

Recomendações

Para ouvir:

Sound Patterns  (1961)

Electronic Works (compilação – 1997)

Deep Listening, com Stuart Dumpster, Panaiotis (1989)

Accordion & Voice  (1982)

Pauline Oliveros in the Arms of Reynols, com Reynols (1994)

Para ler (Obras de Pauline Oliveros):

Software for the people

Sonic Images

Sonic Meditations

Deep Listening: A Composer’s Sound Practice

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