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O ciclo das águas de Letícia Novaes

Falamos com Letrux sobre tornar-se poeta, o peso da palavra e o desavergonhamento em ter o amor como combustível para se aventurar pela trajetória da escrita. 

Texto Pedro Camargo
Foto Cabra e Isabela Yu

Entrevista publicada pela primeira vez na quarta edição da Revista Balaclava, em abril de 2019.

De Clarice, para Letícia:

Das poderosas entrevistas que Clarice Lispector fez com personalidades notáveis, reunimos algumas de suas perguntas mais enigmáticas e as jogamos sobre Letrux. 

Qual é a coisa mais importante do mundo?

Não é o amor, é a paz. Uma vez, eu vi um filme lindo que chama Luz Silenciosa. Nossa, o filme que eu mais chorei na minha vida. Um drama, um casal não pode ficar junto, aí a mulher termina com o cara com uma lágrima caindo do olho e ela não aguenta mais aquela loucura e diz: “a paz é maior que o amor”. Porque todo mundo fica “ai, o amor, o amor…”. Sim, o amor é tudo. Mas, a paz é maior que isso. Eu estava falando sobre ir até o fim com as consequências do amor, mas chega uma hora que ó… Paz! Então, vamos ficar em paz? Vamos não nos matar? Acho que é isso. A coisa mais importante do mundo é a paz. Que falta em todo mundo. Agora mais do que nunca.

Sim, o amor é tudo. Mas, a paz é maior que isso.”

Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?

Sensibilidade. Não acreditar que o relógio dita a vida. Não ficar “ai, um compromisso”, “ai, um trabalho”, etc. Hoje eu senti que eu queria dar um mergulho, hoje eu senti que eu queria matar o trabalho. Óbvio que você tem que ser responsável, mas a sensibilidade tem que ser seu instinto, seu terceiro olho. Ela é tudo. E, claro que tudo tem que ter um equilíbrio. Você também não precisa sair por aí suspirando à toa. Eu sou muito assim, me afeto com tudo. Mas, fui ficando casca grossa. Fiz 37 anos, já estou cada vez mais rumando para um lugar que eu desejo estar de tranquilidade. Mas, a minha sensibilidade sempre me guiou para caminhos legais, curiosos, divertidos da vida.

O que é amor e o que você acha do amor?

Ih, já falei tanto de amor, mas daí a definir é foda. Amor, pra mim, é uma coisa absolutamente desnecessária, mas que é deliciosamente desnecessária.

Qual foi o fato mais importante da sua vida?

Cara, o fato mais importante da minha vida foi minha prima ter morrido de meningite. Quando eu tinha 17, ela tinha 19, era minha melhor amiga e a gente era prima-irmã. Ali teve uma quebra de fluidez, de algum pensamento ingênuo que eu tinha da vida. Mas, teve essa quebra também – ela era muito foda, ela era feminista e não sabia – porque somos muitos primos homens. E ela era minha única prima mais velha. Então, só o Léo podia não-sei-o-quê. E ela falava: ‘não, então a gente pode também’. Ela tinha uma aura: me viu fazendo teatro, quando eu tinha 13 anos, no colégio, e disse: você vai fazer isso para o resto da sua vida. Não entendi o conceito, ‘resto da minha vida’, e pensei: ‘que louca, Marina’. Era uma pessoa fantástica e uma pessoa que já tinha feito tudo. Já tinha fumado maconha, já tinha cheirado cocaína, já tinha transado… Eu era virgem, nem bebia! Era fascinada pela figura dela. E ela morreu de uma forma muito estúpida. Acordou no dia do aniversário dela e morreu. De meningite. E a Clarice também morreu no dia do próprio aniversário. Então a vida se divide um pouco, entendeu? Acho que eu podia falar coisas mais assim: fiz shows, amei, meus sobrinhos nasceram… Mas, isso da Marina é muito marcante. Porque todo dia eu penso: se ela estivesse viva, quantos anos teria? Eu fico pensando o que teria acontecido se ela estivesse viva. Às vezes, as ausências são mais fortes do que sei lá… Até porque eu era muito nova. Então, foi assim. No ano do vestibular. Foi foda.

O que você sente antes de enfrentar o público? Segurança ou inquietação?

Inquietação. Vontade de fazer cocô. Vontade de desistir. Eu sempre falo: ‘que besteira… Por que essas pessoas estão aqui? Por que gastaram dinheiro com isso?’ E tem gente que fala: ‘ah, vai passar’ ou ‘ao longo dos anos, você vai melhorar’. E eu vi que a Fernanda Montenegro fala que até hoje, ela tem 80 e poucos, quando vai se apresentar, sente um frio na barriga. E eu também quero sentir isso. Acho que o dia que eu não sentir talvez perca a graça. Desde show em inferninho até show em festival. É igual, eu fico nervosa, minha mão sua. E dor de barriga, sempre. É um sinal de que estou viva! Fiz cocô em todos os lugares que eu cantei. A maioria dos lugares eu faço um cocozinho antes para dar uma relaxada. É brabo. (risos)

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