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Em faixa a faixa, Karen Jonz divide as histórias escondidas em Papel de Carta

As músicas do primeiro disco da skatista premiada vem sendo trabalhadas há sete anos

Texto Isabela Yu
Foto Pedro Pinho

Como boa criança da década de 1990, Karen Jonz era apaixonada por papel de carta e até hoje prefere manter um caderno para escrever suas composições. Inclusive, algumas ideias engavetadas entraram no repertório de Papel de Carta, seu primeiro disco, lançado em maio deste ano. Antes de engravidar em 2015, preparava um disco de rock ao lado de Lucas Silveira, seu marido e parceiro musical, mas a vida foi acontecendo e os planos também mudaram – juntos, eles já haviam criado os projetos Violeta Ping Pong e Vaconaut and the Apple Monster. 

“Venho falando que ia fazer esse disco faz tanto tempo, que parecia que eu estava só contando história e até cheguei a duvidar. Ele existia e não existia.  Essas são músicas que fiz e nunca lancei. As cartas que devia ter escrito, mas o papel era bonito demais para estragar com palavras. O título do disco veio por último, depois das fotos, da capa e músicas. Como colecionadora de papel de carta e adolescente skatista, vivia dois opostos. A coisa do fofinho, kawaii, delicado e a força, sujeira, explosão do skate”.

No novo trabalho, que conta com participação de XAN e Gab Ferreira – além de um breve feat da skatista japonesa Kisa Nakamura –, mergulha no bedroom pop para dar vida às suas letras que falam sobre vulnerabilidade de forma sincera. “Apesar de íntimo, faço concessões para ser acessível. Quando comecei a fazer o disco há sete anos, eram músicas soltas. Ali pela oitava música, notei que elas se conectam e complementam”, conta. No último mês, lançou uma versão acústica de “Hiperventilando”, ao lado da Lio, da Tuyo, além de uma linha de merch com direito a shape de skate. No faixa a faixa a seguir, Karen comenta as histórias que compõem o universo do disco: 

Terapia: É um prelúdio curto, tentando consertar algo que ficou de errado, meio cotidiano. Inicialmente, ela era mais longa, mas eu e o Lucas decidimos cortar pela metade porque fazia mais sentido.

Tirem-me daqui: Escrevi essa música voltando da terapia, quando estava dirigindo. Levo uma hora pra ir e uma pra voltar. Nunca me incomodei 1) pq minha terapeuta é tão boa que ir ver ela é tipo viajar para Avalon e 2) porque comecei surtada, minha filha ainda bebê e era o único tempo que eu tinha pra mim mesma, sem interferências. No processo, entendi o quanto eu não sabia nomear e reconhecer os sentimentos e como passava por cima de tudo ao invés de lidar com a situações, resolver (ou pelo menos tentar) e que isso acabava voltando como crises de ansiedade (que eu tenho desde criança – e só descobri que tinha nome depois de adulta). A sensação durante uma crise (faz algum tempo que não tenho mais) é de estar descolada do meu corpo, além de tremedeira, dormência, taquicardia, tontura e pensamentos obsessivos.

BIG MUFF: É o nome de um pedal, mas dá a impressão de ser o chefão de alguma fase de videogame. Essa faixa, junto com “ET”, era parte de um projeto de rock que nunca saiu. Mas pra encaixar em Papel de Carta, rolou uma nova roupagem, uma mudança na melodia. Empaquei muito no refrão, porque era muito diferente e impossível de cantar de tão agudo. Um dia eu estava ouvindo a demo para tentar criar algo, e pedi pra Sky cantarolar algo naquele espaço. De primeira, ela inventou a melodia com uma letra que soava como “Vaccinated in the sun”. Eu gravei no celular e chegando em casa mostrei pro Lucas. Era muito melhor do que o refrão original que eu tinha feito e substituímos, só trocando a letra. Eu queria que tivesse uma parte em japonês na música. O refrão da primeira versão dizia “porque você não vem aqui”. Pedi pelo Instagram para minha amiga skatista Kisa Nakamura cantarolar a frase. Tanto que dá pra ouvir ela falando “why don’t you come here in japanese”.

Afogar ou mergulhar: Essa é uma baladinha que escrevi em um momento que eu não conseguia escrever sobre nada. A única coisa que fazia sentido era reclamar. Não me reconhecia direito. Pós-maternidade, muita gente se afasta, nosso corpo muda, meu cabelo estava horrível e foi ali que reavaliei muita coisa. Percebi que tinha escolhas sobre a maneira de encarar as coisas, então consegui abandonar aquilo que não cabia mais ou que não fazia tão bem.

Segura aqui feat Xan: Convidei a Xan para participar dessa faixa pois amo o timbre dela e a liberdade e doideira que são as suas músicas. Nosso processo de composição foi pelo Whats; Muitas vezes eu não entendia o que ela tinha cantado e perguntava: “foi isso que você pronunciou?”. E ela respondia: “não sei, mas pode ser, isso é bom kkk”. Isso foi na semana em que a namorada dela a pediu em casamento, então a parte dela do refrão fala sobre isso.

Exausta: A minha favorita durante um bom tempo durante a construção do disco. Talvez ela seja a mais intensa,  às vezes acho até difícil de escutar, pois são muitas camadas, ela vai carregada e parece que uma hora vai explodir rs. Estava no avião lendo um livro que falava sobre pensar em tragédias o tempo todo na semana que minha irmã e eu estávamos verbalizando que vínhamos sentindo isso (e talvez sentíssemos desde crianças) e como percebemos que nossa mãe e avó também compartilhavam. Um tempo depois, mostrei essa música para minha mãe e ela começou a chorar e, me perguntou se eu tinha escrito para ela. A verdade é que não foi, mas a parte dela em mim talvez consiga expressar o que ela não consegue.

ET: Tinha algumas obsessões quando eu era criança, entre elas, as principais eram COISAS NOJENTAS, GNOMOS e ETS. Nunca fui muito a fundo na Ufologia, mas ficava bastante tempo observando o céu procurando naves, principalmente porque os meus pais tratavam com uma coisa que realmente existia. Essa faixa é a mais rock do disco e até destoa um pouco porque ela vem do disco de rock que eu ia lançar antes de engravidar. Nessa época, enjoei de comida, peguei asco das músicas e desisti de lançar. Anos depois, escutando novamente, chegamos a conclusão de que essa e a “Big Muff” merecem uma sobrevida, enquanto essa teve bastante mudança, “Et” quase não mudou. 

Hiperventilando: Comecei a tomar antidepressivo depois de voltar ao Brasil, em um período pós-campeonato muito intenso. Foram anos de dedicação e treinos, muita disciplina e foco. Ficar longe da família e amigos, fazendo dietas restritivas, exercícios chatos e repetitivos. Aos poucos a criatividade e a liberdade foram ficando abafadas, esquecidas, em busca de um objetivo. Acabei ganhando o X Games seguinte e subi ao pódio por três anos consecutivos. E lá de cima, percebi que não estava mais feliz, que tinha se tornado vazio, tanto a vitória quanto o processo. O remédio me ajudou quando estava em crise, mas depois de um tempo não sentia mais nada. Nem bom e nem ruim. Fiquei num período arrastado, que não tava mal mas não tava bem.

Nunca Foi Descaso feat Gab Ferreira: Quando o skate virou esporte olímpico, resolvi tentar uma vaga. Para isso precisaria competir em todas as etapas do circuito pelo Brasil. Um investimento alto de tempo, dinheiro e de vida. Eu estava sem patrocinador, mas decidi que valia investir minhas economias nessa empreitada (sem ter muita certeza, mas nesse ponto não tentar parecia pior do que falhar). Minha filha tinha  dois anos e pouco, em todas as vezes que eu viajava ela ficava doente. Eu tinha parado de tomar antidepressivo na gravidez, o que significava lidar com um cenário competitivo sem estar medicada. Foram três ou quatro etapas, e em nenhuma eu consegui um desempenho minimamente satisfatório além de me sentir cansada e deslocada. Não conseguia me dedicar o suficiente e me sentia dividida, mesmo me esforçando ao máximo em todas as áreas. Algumas pessoas me incentivaram, e acho que isso alimentava (meu ego?) e me impulsionava a insistir um pouco mais. Se esforçavam em não me deixar desistir, tentando me convencer de que “se eu quisesse eu conseguiria”. Talvez eu nunca tenha querido o suficiente, pois sei o que precisa pra conseguir (explico melhor na “Hiperventilando”) e não aguentaria passar por aquilo de novo. A situação chegou ao limite e eu percebi que não seria possível. Estava na etapa de Florianópolis e chovia (o que nos impossibilitava de treinar) e a pista ficava de frente com a costeira. Foi ali que eu entendi que não fazia mais sentido pra mim e que eu deixaria o circuito. Além disso, teve a Gab Ferreira vindo gravar. Compusemos juntas a parte que faltava e fluiu muito bem. Ela anotou as letras no celular (eu sou totalmente do papel) e rapidinho gravou os vocais, dobras e harmonias tudo perfeito.

Peças Quebradas: Essa música era um exercício da minha aula de piano que eu achei que ficou bonitinho e acabei gravando. Eu tenho muita facilidade em começar coisas e dificuldade em terminar – sinto que é algo que tento melhorar diariamente. E as vezes fico paralisada quando tem muita coisa para fazer/ pensar/ sentir. Na adolescência, eu tinha a sensação de que tinha algo quebrado em mim por me sentir deslocada/ inadequada (quem nunca) mas com o tempo, fui percebendo que isso não era uma fragilidade. Ser capaz de se colar de volta e recomeçar era importante 🙂

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