Apego ao conflito

O quinteto inglês Shame faz parte da nova geração de bandas jovens conscientes.

Por Fernando Dotta e Isabela Yu
Foto Rodrigo Gianesi e Filipa Aurelio

(Essa matéria foi publicada originalmente na quinta edição impressa da Revista Balaclava, lançada em novembro de 2019).

Desde os tempos de colégio no sul de Londres, aos 16 anos, o quinteto inglês Shame ganhou fama ao roubar a cena com suas performances absurdas e enérgicas que se tornaram a assinatura do grupo. “A banda surgiu durante um longo verão na cidade, estávamos incrivelmente entediados e nos pareceu uma atividade construtiva”, relembram.

Liderados pelo intenso e carismático vocalista Charlie Steen, ao lado de Sean Coyle Smith (guitarra), Eddie Green (guitarra), Charlie Forbes (bateria) e John Finerty (baixo), eles são considerados um dos principais representantes da volta da sonoridade punk do Reino Unido, ao lado de bandas como IDLES e Fontaines D.C. A recém conquistada popularidade não parece ser uma coincidência, levando em consideração ao clima mundial.

“Como as bandas mencionadas anteriormente, parece que existe mais demanda e apreciação para esse tipo de música no Reino Unido e Irlanda. Então, é refrescante ver pessoas de todos os lados se unindo por isso. Historicamente existem coisas que nascem da raiva e frustração pelo jeito como as coisas são. Existem muitos motivos para se ter raiva hoje em dia e a música atual reflete isso.”

Lembrando que os integrantes tem 20 anos, o período inicial da banda já foi marcados com shows históricos como Glastonbury e turnês de apoio ao lado de Warpaint e The Fat White Family. Entre os músicos, todos concordam que a melhor apresentação do Shame foi o show headliner e sold-out no 02 Kentish Town Forum, construído em 1934 – “realmente importante tocar em um espaço daquele tamanho e com aquela história”.

O álbum de estreia Songs of Praise (2018) já é considerado um clássico moderno pela crítica musical, em que faixas como “One Rizla”, “Concrete” e “Tasteless” crescem de forma catártica ao vivo. O processo de composição do registro se resumiu a isolarem-se, escutar a ideias de cada um até as músicas soarem prontas. Não se sentiram pressionados a reproduzir a experiência do ao vivo para a gravação: “quisemos capturar energia no estúdio mas há uma distinção entre os dois, são entidades separadas e as pessoas esperam coisas diferentes deles”.

Só quem viveu a décima edição do Balaclava Fest pode atestar sobre esses caras ao vivo. Para celebrar a estreia no país, pedimos para responderem algumas perguntas:

De quem era o show mais inesquecível que vocês presenciaram e por que foi tão bom?
Começamos a ir em shows juntos, antes de começar a banda. Um dia comovente para nós foi no Queens Head, em Brixton, com The Fat White Family, Childhood, King Krule e Jerkburb. Foi muito massa para nós ver tantas bandas boas no mesmo lugar e foi esse dia que nos inspirou a começarmos a fazer parte daquilo tudo.

Qual é a coisa mais estranha que já aconteceu durante uma turnê?
Recebemos uma multa de 1500 euros em um período de 24 horas pela polícia espanhola por três incidentes diferentes. Foi um daqueles dias que tudo deu errado e o mundo estava pronto para nos pegar. Nosso tour manager acidentalmente acertou uma bike policial com a van e quase foi preso. Foi intenso.

Qual é a música mais punk já escrita?
Vengaboys – “We Like To Party”.

A Balaclava começou com um selo e vê a Rough Trade como uma grande inspiração. Como vocês começaram a trabalhar juntos?
Bom, nosso manager Paul Jones trabalha para a Rough Trade então é por isso que estamos com eles. A cena independente e DIY de selos se baseia mais em apostar em artistas do que fazer dinheiro. Cada cena musical tem algumas ótimas labels, algumas que nós conhecemos são a Slow Dance e a Ra Ra Rok, que são de Londres mas estão ficando conhecidas ao redor do mundo.

Nós também amamos black midi! Como vocês se conheceram? Fazemos parte da mesma cena de Londres e fizeram os primeiros shows no Windmill, como nós. É incrível vê-los crescer, nós também dividimos managers.

O que vocês estão escutando atualmente? Poderiam recomendar uma banda britânica que nós devemos conhecer?
Muito Black Country New Road, Squid e Working Men’s Club. Há uma nova banda chamada PVA que com certeza vocês vão escutar muito em breve.

Quais são os planos para o futuro? Algum conselho para sobreviver o cenário político?
Quando o apocalipse político chegar no Reino Unido nos próximos meses, vamos nos mudar para o Uzbequistão e viver com as pessoas da montanha.

*Em setembro de 2020, a banda lançou um novo single, o “Alphabet”. O aguardado segundo disco, Drunk Tank Pink, saiu em 15 de janeiro de 2021.

Alguns registros de como foi o show do Shame no Breve, um dia antes da apresentação do Balaclava Fest. Quem viveu, viveu. ☺

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