5 artistas mulheres que cantam sobre o novo Nordeste

Acompanhe o trabalho de Bixarte, Bella Kahun, Juliana Linhares, Renna e Mar Di Fuego.

Texto Jorja Moura
Foto Luigi Apolinário 

A musicalidade do Nordeste sempre ganhou grande destaque na mídia, graças a estilos como o Forró, Baião, Xote, Xaxado, Coco de Roda e o Frevo. Apesar da popularidade, o povo nordestino sofre com estereótipos de discursos xenofóbicos em todos os lugares – até mesmo na internet. Principalmente quando falamos sobre narrativas com vozes femininas, que vão muito além de um arquétipo “Paraíba masculina muié-macho, sim sinhô”.  

Pensando nisso, trouxemos 5 artistas mulheres para você ouvir, refletir, e quem sabe se conectar ainda mais com essas novas mulheridades que vêm da região mais extensa do país. Clique aqui para escutar uma playlist especial com as músicas dessas 5 artistas.

 Bixarte – Oxum (2021) 

Cantora, rapper, compositora e poetisa, Bixarte explora na sua arte formas de manifestar as suas dores como mulher preta, periférica e travesti. Em 2020, a paraibana foi uma das finalistas do Slam Brasil e ganhadora do Festival de Música da Paraíba.  

Neste ano de 2021, a artista lançou o primeiro single do seu novo projeto: Nova Era, intitulado “Oxum”. De acordo com a própria cantora, a faixa serve como uma súplica ou acalanto para recarregar as forças em meio a dor pandêmica. 

Bixarte busca, através da canção, resgatar a sua conexão com a divindade do candomblé Oxum, a mãe das águas calmas. Os beats da faixa são produzidos pelo DJ paraibano Furmiga Dub, que misturam o som de cordas e batidas no estilo groove, transmitindo um movimento de envolvimento para quem ouve. 

Ouça o single aqui.

Bella Kahun – Crua (2020)

Bella Kahun, cantora e compositora natural de Garanhuns, em Pernambuco, lançou o seu primeiro álbum em 2020: Crua. “O título representa a ideia de despir a si mesma de tudo que te cerca, restando apenas a sua forma mais crua, carnal e real possível”, comenta Bella. 

No disco, a cantora sintetiza seus sentimentos, inseguranças, desejos e verdades, como se estivesse em uma conversa na mesa de bar. As influências da artista vão de Elis Regina a Buena Vista Social Club.

Inicialmente, todas as faixas foram compostas apenas no violão, mas ganharam novas formas, ao adicionar elementos do bolero, brega, jazz, r’n’b e MPB. A produção musical é assinada por Mazili e os arranjos de cordas por Moral.

Destaque para as faixas “Romeu”, “Boêmia” e “Não Me Procure Mais”.

Ouça o álbum completo aqui.

Juliana Linhares – Nordeste Ficção (2021)

Ao morar no Rio de Janeiro, a cantora e compositora potiguar Juliana Linhares – mais conhecida como vocalista da banda Pietá –, passou a entender o que significa de fato ser uma mulher nordestina vivendo no Sudeste. Tais reflexões geraram as inquietações para criação do seu primeiro álbum solo, Nordeste Ficção

Inspirado no livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, a cantora explora uma forma de ressignificar os arquétipos do nordestino, como os mini-cactos em apartamentos no Sudeste. “Aquela planta que ninguém rega, ninguém cuida, mas que segue firme na força de seus espinhos”, comenta a artista. 

Com vocais agudos e rasgados, que lembram a cantora Elba Ramalho e sonoridade das, também nordestinas, Cátia de França, Amelinha e Terezinha de Jesus, as 11 faixas do disco se misturam ao som de percussão e guitarras eletrizantes, com sanfona, flautas e pífanos tocados por Carlos Malta. Produzido por Elísio Freitas, o projeto também conta com parcerias, como Tom Zé,  na inédita “Aburguesar”, Chico César e Zeca Baleiro.O registro também conta com compositores da nova geração: Posada, Moyseis Marques, Rafael Barbosa, Khrystal, Jessier Quirino e Caio Riscado.

Destaque para a faixa de abertura, “Bombinha”, a faixa-título, “Nordeste Ficção” e a dramática “Aburguesar”, parceria com a cantora Letrux.

Ouça o álbum completo aqui.

Renna – Lamento de Força Travesti (2021)

Ao evocar a dor e a força  de ser travesti, a transartivista catarinense, mas radicada em Pernambuco na metade da última década, Renna lançou o seu primeiro videoclipe no início do ano. Uma das selecionadas para a revista virtual CQTL MLT.EXE, do Festival No Ar Coquetel Molotov 2021, a artista apresentou “Lamento de Força Travesti” como uma mistura de ritual de luto com a insurgência de corpos dissidentes, em paralelo à celebração da vida, por meio de imagens gravadas no Vale do  Catimbau, no Sertão de Pernambucano. 

De acordo com a própria artista, a canção assume  o  tom  de  denúncia  da  realidade  trágica  da  transfobia, mas também vem como uma afirmação  da  própria  potência  da  vida travesti.  A composição traz uma forma de acolhimento e de construção de um mundo onde  essas mulheres possam “envelhecer e cantar a  beleza  do  corpo marcado  de  uma  travesti”,  como diz a própria letra escrita por Helen Maria. 

A  produção do single é assinada por Luana Flores, DJ e percussionista paraibana. A track remete à sonoridade sertaneja, mesclando funk,  maculelê,  coco de roda e vogue, ao passo que mistura um som eletrônico de pop  dançante. 

Mar Di Fuego – Mar Di Fuego (2020) 

Ao sentir a necessidade de falar de espiritualidade e suas paixões, Maria Ferraz lança o primeiro single como o seu projeto musical Mar Di Fuego. Natural de Petrópolis no Rio de Janeiro, mas radicalizada desde os 11 anos na capital da Paraíba, a artista apresenta músicas com influências de dub, jazz, batuques africanos e som eletrônico. O músico Amaro Mann assina a produção das faixas, os beats, guitarras e sintetizadores. 

Um dos integrantes do Festival Miragem 2021, o projeto musical foi pensado para ter três EPs. Cada um conta com três faixas que têm em comum o elemento fogo e as suas letras falam de empatia, amor e empoderamento, traduzindo um tipo de linguagem, definido pela própria cantora,  como “Pop Chapado”.  

Ouça os três EPs da banda aqui.

Gostou? Temos também essas outras matérias

O caminho do meio de “Castelos & Ruínas”

Um dos trunfos do disco é a ressignificação da “sombra” como algo ruim. Em seu álbum de estreia, lançado em 2016, BK’ não renega o sombrio, mas muito pelo contrário: faz amizade com ele. Distante de qualquer babaquice bucólica, ele entende que compreender o que há nesse lado é essencial para usá-lo a seu favor.