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Tyler, The Creator e o uso de personas como ferramenta narrativa no Hip Hop

Ao transformar o seu processo pessoal em arte por meio da combinação de elementos narrativos em seus álbuns, Tyler mostra porque sustenta Creator em seu nome.

Texto Gabrielle Neves (Brasa Mag)
Foto Luis ‘Panch’ Perez

Estamos sempre buscando maneiras de nos expressarmos. Conscientemente ou não, isso faz parte da nossa natureza. Procuramos meios de nos sentirmos mais confortáveis em abrir nossa mente para o outro e, com o passar dos anos, encontramos os espaços e as ferramentas certas para cada um deles.

Compor e escrever histórias poderiam ser sinônimos, afinal, são relatos sobre a vida, sentimentos e trajetórias – ou até mesmo só um rolê que nunca aconteceu e nem irá. Quanto mais acontecimentos pessoais são externados, mais ferramentas narrativas existem, o eu lírico e o alter ego são exemplos disso.

Falar sobre alter ego, pseudônimos e eu lírico pode gerar muitas dúvidas, principalmente por se tratarem de recursos com denominações muito parecidas. Crescemos lendo livros e vendo essas ferramentas sendo usadas na literatura, porém, elas também são usadas na música!

O rapper estadunidense Tyler,The Creator encontrou maneiras de usar esses recursos em sua discografia como ninguém.

Pegue seu fone e aperte o play de acordo com o álbum!

Odd Future: o começo de tudo

O grande público conheceu Tyler no coletivo de rap Odd Future e desde essa época ele já utilizava conceitos como pseudônimos e alter ego.

Suas produções, por exemplo, eram assinadas como Ace, The Creator, e fomos apresentados a Tron Cat, a violência que tomava forma em sua mente.

De Bastard a Wolf:

alter ego

Em 2009, Bastard é lançado e, juntos a Tron Cat, somos aprofundados em uma violência imersiva, contínua e carregada de angústias.

Goblin, lançado em 2011, conta com  Dr. TC, um alter ego personificado por um psicólogo, uma espécie de tradução de seu superego, e Goblin, outro alter ego que assume o papel de paciente.

O terceiro marco de sua discografia é Wolf, 2013. Através dele, conhecemos mais dois alter egos: Sam, infantilidade e dependência emocional, e Wolf Haley, seu ID (responsável por desejos inconscientes, impulsos). O álbum conta com um triângulo amoroso: Sam, Salem e Wolf.

Wolf aparece nos clipes do Goblin – Sandwitches, Yonkers e She – mas somente dois anos depois entendemos quem é aquela pessoa e seu papel.

De Cherry Bomb a Igor:

eu lírico

Em 2015 temos Cherry Bomb. O álbum polêmico muda o foco nos alter egos e o traz para o eu lírico, de maneira oculta. Arrisco dizer que esse foi um momento de transição, marcado pela ambiguidade, entendimento, confusão sentimental e amadurecimento.

Com caminhos abertos, Flower Boy é compartilhado com público em 2017. Somos presenteados com um amadurecimento e aceitação do eu lírico apresentado em Cherry Bomb. Tyler fala sobre amor, fama, solidão, sexualidade como se tudo que havia sido trilhado até aquele momento fosse em prol de seu encontro consigo mesmo e dentro de si.

A abertura para a auto compreensão faz com que visitemos o passado com outro olhar, uma visão que gera outra perspectiva e nos faz aprender a usar as melhores partes do que já criamos e vivemos. Tyler faz isso em 2019 com IGOR.

Ao utilizar um alter ego que teve como inspiração a história do personagem Frankenstein em um álbum dividido em três partes narrativas sobre um triângulo amoroso, Tyler revive Wolf.

Além de aprofundar mais ainda a história de Wolf, IGOR funciona como um catalisador que centraliza todos os alter egos já apresentados em si mesmo para alterar o rumo da narrativa de Tyler.

CALL ME IF YOU GET LOST:

o retorno ao alter ego

Em 2021, temos Call Me If You Get Lost. O disco funciona como um ponto e vírgula, mostrando que certos processos internos foram finalizados e que Tyler não seria somente definido por alter egos ou por seu passado.

Emerge uma maturidade pessoal e artística expressada através de recursos narrativos onde um personagem é apresentado: alguém é criado para narrar aquela história em específico. Mesmo usando um personagem, vemos Tyler de maneira translúcida, vemos alguém que encontrou em seu passado maneiras de moldar o futuro.

Se um dia ele estava perdido e se utilizou de alter egos para entender e externar seus sentimentos, agora ele não só se encontrou como também estendeu a mão para outros localizarem seus próprios caminhos.

SE ESTIVER PERDIDO, LIGUE OU COLOQUE TYLER PARA TOCAR EM SEU SOM NO VOLUME MÁXIMO

Sobre a Brasa Mag: revista digital e transmidiática sobre Hip Hop formada por 26 mulheres negras, e um homem negro, de diversas regiões do Brasil, preocupadas em registrar a história cultural e periférica originária desta cultura.

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