Taco de Golfe se aproxima do próximo disco com single “Das Coisas”

Na terceira edição da série que vai apresentar o casting da Balaclava Records, conversamos com a banda sergipana sobre o novo álbum, “Memorandos”, que será lançado em agosto. 

Texto Mariana Marvão
Foto Beatriz Linhares 

Um dos nomes mais proeminentes da cena independente atual é o duo experimental de Sergipe, Taco de Golfe. Conhecidos pelas baterias fora do tempo, eles se preparam para lançar “Memorandos”, o seu terceiro álbum de estúdio, e o primeiro pela Balaclava Records, no final de agosto. 

O novo single, “Das Coisas”, marca o início da parceria entre a banda e João Mário, músico e produtor sergipano, que gravou baixo e co-produziu algumas das faixas do disco. A faixa vem acompanhada de um clipe dirigido, produzido e editado por Vitor Daniel, o ‘Capitão Ahab’, com imagens captadas por Maria Paula Barreto e Matheus ‘Gagau’ Reckziegel.

Depois de já terem lançados dois singles “Pessoa que Fala” e “Tratados de Obrigação”, a ansiedade para ouvir esse trabalho já é grande. Em uma conversa pelo Zoom, os dois integrantes, Gabriel Galvão e Alexandre Damasceno, falaram sobre o disco e como foi a sua produção no último ano. 

Vocês sentem muita falta dos shows?

Gabriel: Eu sinto. (risos)

Alexandre: Demais. Sinto, mas nem tanto quanto o Gabriel. É uma parte importante mesmo, é fundamental, mas enfim, tem os ônus também. Não sei se é coisa de baterista também… Aí cê joga só na minha preguiça mesmo, né. (risos)

Vocês são uma das poucas bandas de math rock no Brasil. Vocês gostam de se encaixar nesse gênero ou preferem não se rotular a um estilo? 

Alexandre: O som da gente é math rock, mas isso não quer dizer nada. Eu fui um adolescente de last fm e gostava de tag, nunca vi problema com isso né. Era mais uma questão de conversar sobre as coisas mesmo e dar essas características resumidas das coisas para poder desenvolver a conversa. Então, math rock não precisa ser uma coisa só, aí o math rock já é um gênero derivado do post rock, o post rock já vem de outra coisa, aí tem o proto-math rock, enfim… Aí jazz, não sei o quê. Mas eu acho que é mais isso mesmo, são essas tags para dar um inicio de conversa. ‘Ah, banda de math rock’, porque os caras tentam tocar em compasso diferente.

Vocês assinaram com a Balaclava Records faz pouco tempo, vocês acham que isso mudou alguma coisa? 

Gabriel: Acredito que sim, pelo fato da gente ter esse vínculo com a Balaclava, agora a gente acaba se exigindo um pouco mais em relação ao conteúdo que a gente vai soltar e tudo mais.

Alexandre: É, com certeza, acho que a gente vai pra um outro nível na questão de visibilidade, a galera vê com outros olhos e tal. A gente sente essa coisa e tenta se esforçar mais.

Falando um pouco sobre o disco que está por vir. A ideia dele veio durante a pandemia? Vocês acham que esse período “ajudou” vocês de certa forma?

Alexandre: Nos ajudou a ter uma concepção mais fechadinha. A gente começou a botar nomes nas coisas… As próprias ideias vieram quase todas na pandemia, não sei se veio coisa de antes.

Gabriel: Não, todas elas vieram nesse contexto também.

Alexandre: Mesmo antes da pandemia, a gente está sempre com essas coisas, então não sei exatamente se teve alguma ideia que o Gabriel usou de antes. Mas acho que é isso, 99% foi na pandemia mesmo.

Alexandre: Entendi o que você quis dizer, ‘ajudou’ no sentido de que se não fosse ela, seria completamente diferente. Tudo que ia acontecer seria completamente diferente. Ajudou no sentido de que ela realmente moldou o disco. Mas eu não diria que ‘ajudou’ no sentido que, assim, a gente conseguiu fazer mais ou melhor. Isso não tem como dizer. 

E vocês estavam morando juntos quando vocês fizeram o álbum. Isso foi bom?

Gabriel: Isso agilizou demais o processo. Quando alguma coisa dava errado, era muito mais fácil resolver e tudo mais. Ou quando alguma ideia vinha era muito mais tranquilo de conversar, mas é isso, acredito que sim. Esse contexto da gente estar morando junto, estar numa pandemia, de certa forma acabou agilizando o processo. Eu acredito que esse disco teve um processo de pré-produção, um processo criativo um pouco mais intenso, mais atencioso com as músicas, no sentido de pensar elementos, d timbres, essas coisas. Por mais que a gente não pudesse estar tocando o tempo todo, mas a gente tá lá com o computador disponível, com os projetos das músicas, de ficar ouvindo e pensando em ideias. Foi bem diferente dos outros dois discos, que era mais a gente ir pro estúdio, testar as coisa e tocar junto. 

Esse álbum vocês também gravaram no estúdio?

Gabriel: Foi meio híbrido. A gente gravou as baterias no estúdio e todo o restante em casa. Isso também ajudou bastante porque no final do disco a gente podia mudar em casa o quanto a gente quisesse. Isso abriu mais possibilidades de overdubs. 

Alexandre: Pensei em falar agora de João Mário, porque ele também participou desse processo. Não sei exatamente quantas músicas vão acabar saindo, mas ele participou de 4 músicas.

Todos os singles estão vindo com uma pegada visual muito forte. Vocês acham que essa parte visual ajuda a pensar ‘ah, a gente tava pensando nisso, a gente quer que o público tenha essa sensação’. Isso ajuda a casar as duas coisas?

Gabriel: Bom, acho que sim. Quando a gente pensou na música, é uma coisa que a gente pensou junto, toda a questão do vídeo, toda a questão visual. Até porque no último lançamento, “Tratados de Obrigação”, isso foi pensado em conjunto com o Felipe Riskevich, que fez as artes e foi animado pela Gabriela Fernandes. Quando a gente viu o Instagram do Felipe, o tipo de desenho que ele fazia, acho que foi uma coisa que estalou ‘acho que faz muito sentido ser esse cara aqui, encaixa com o som da banda’. A gente achou muito foda e queria trabalhar com esse cara. Por outro lado, em “Pessoa que Fala”, foi a nossa primeira experiência com alguma coisa desse tipo. A gente teve a possibilidade de fazer um videoclipe através de um edital, pela lei Aldir Blanc. A gente pensou em Jonta, viemos com a ideia e ele veio com o texto, e foi um experimento assim. Mas, durante as gravações eu pensava em alguma coisa que viesse a encaixar com a música e acabou dando certo, foi uma experimentação. 

Alexandre: O videoclipe não vem com a música, é uma coisa bem separada, que a gente tenta encaixar. A gente não quer necessariamente passar alguma coisa pro público. Você pode tentar achar alguma coisa, cada um tenta criar alguma coisa, algum sentido. Depois que o clipe saiu, faço mais conexões, por bem ou por mal…

Quais foram as inspirações nas músicas de Memorandos?

Alexandre: Isso aí, é ‘dia mundial do rock’, tem muito rock, tem um hardcore clássico, tem muitas coisas. Da minha parte, essa coisa do math rock, eu praticamente não ouço mais. Talvez black midi, que eu gosto ainda, essas bandas mais recentes. Squid, essas coisas que não são math rock exatamente. Enfim, math rock é quando o batera destrói. É zoeira, nem ouço mais math rock direito. Ouço mais música ambiente, música eletrônica, muito jazz contemporâneo, jazz europeu, que os caras são meio ‘etéreo’ assim, toca devagar.

Gabriel: É, é um CD de rock. (risos)

Alexandre: Claro que num nível tem uns math rock mesmo… É isso, um CD de rock. Essa coisa da música ambiente, da música eletrônica, tentei trazer na questão da gente explorar mais timbres, de ter interlúdio, tentar ter umas coisas mais espaçadas. Não sei como isso vai se encaixar no disco ainda, mas eu diria que é um CD de rock. As músicas que me vem na cabeça, pelo que saiu e pelas outras coisas que vão compor o grosso do disco, é rock, às vezes até bem clássico. De cabeça eu vou ser péssimo de falar, mas olha, sempre lembro do Jakob Bro, que é um guitarrista dinamarquês – ouvi muito, muito mesmo. Tinha uma fase ali quando MF DOOM morreu, em que eu ouvi bastante MF DOOM, comecei a ouvir um pouco mais de rap e hip hop. Chris Dave que é um batera que pega essa base do hip hop e do rap.

E você, Gabriel, o que você ouviu?

Gabriel: Teve umas coisas que o Alexandre me mostrou que me deu clique de como eu queria soar… Now vs Now e Clipping. Foi na época em que eu voltei a trabalhar presencialmente, e aí eu ia de bike e sempre botava pra ouvir enquanto pedalava. 

Quando vocês criam as músicas, vocês acabam criando isso juntos?

Alexandre: Nesse processo de morar junto na pandemia, compor é uma coisa em que fico viajando e nunca soube direito como fazer. Mas justamente por essa coisa de coletivizar o processo, da gente ficar no mesmo lugar e não só tocando e tocando. Eu e o Gabriel sozinhos com o baixo, tentando caçar notas, tentando produzir algo. A gente tentou e conseguiu fazer isso neste disco. Gabriel tem uma ideia, eu tenho uma ideia, a gente vai tentando formar meio separado. 

Gabriel: Acho que o embrião vem de alguém, mas a gente tentou discutir todas as músicas. Assim, não só testando no ponto de vista de música e tal, mas de ficar conversando com a música de uma outra forma. Às vezes eu acabo vindo com um pouco mais de estrutura, às vezes eu só com um riff, às vezes o Alexandre vem só com um riff que ele pensou enquanto estava no banho.

Alexandre: Eu no banho e vem uma linha de baixo, aí eu tento. Porque eu não toco instrumentos… Só toco bateria mesmo, mas na minha cabeça eu toco tudo. Aí vem essas coisas e eu tento passar pra Gabriel.

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