Longe dos palcos, artistas resistem (e se encontram) com aulas de música na internet

A ausência de shows desde o início da pandemia fez com que músicos buscassem uma segunda opção para sobreviver em tempos de incertezas. Conversamos com Hugo Noguchi, Lucas Theodoro e Alejandra Luciani para desvendar o assunto:

Texto Henrique Santiago
Foto Divulgação

O que o jogador de basquete Kobe Bryant, o artista marcial Bruce Lee e o espadachim Miyamoto Musashi têm em comum? Além do fato de não estarem mais nesse plano, essas três personalidades aparecem de um jeito inusitado na música.

O baixista Hugo Noguchi (ex-Ventre e hugo), 32 anos, se afastou de seus ídolos John Entwistle (The Who) e Aston Barrett (Bob Marley & The Wailers) e incluiu a filosofia de cada um desses mestres de outras artes no seu plano de aulas do instrumento elétrico. Desde que a pandemia de covid-19 se instalou no Brasil, o músico e produtor decidiu transmitir seus ensinamentos a terceiros, uma vez que está impossibilitado de subir aos palcos há um ano e meio.

Diferente de um curso convencional, Noguchi define que o método aplicado nos encontros virtuais é de um autodidata em fase de experimentação. As aulas passam por uma introdução da história do instrumento, seus fundamentos e, claro, a  parte prática. Por opção própria, diz, ele tem uma aluna a quem dedica 100% do tempo uma vez por semana desde maio. 

“A minha maior inspiração é o Musashi, que escreveu um livro sobre a sua relação com a espada. O que eu peguei foi: você começa muito bruto, aprende os movimentos através de repetição, consegue técnica e aí aprimora. O Bruce Lee diz que não existe um estilo, que não se deve seguir uma  determinada escola, e sim juntar todos e criar seu estilo próprio. O Kobe tem mais uma questão ética, quase uma obsessão, de treinar muito e preparar o físico para uma partida”, explica.

O guitarrista e técnico de som Lucas Theodoro (E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante), 30 anos, descobriu no Instagram que seus seguidores tinham muitas dúvidas relacionadas a áudio ao vivo e no estúdio. Em abril deste ano, trancafiou-se em um estúdio feito dentro de casa para ensinar as minúcias da mixagem, produção caseira e até microfonação.

Experiente na música, mas desbravador iniciante no ensino online, Theodoro busca quebrar as limitações impessoais do uso do Pro Tools à distância ao tentar entender a necessidade de cada um dos seus alunos durante os encontros.

A conexão pode falhar vez ou outra, mostrar um acorde para a tela do computador pode ser complicado, mas Lucas Theodoro vê um peso mais favorável do que contrário para continuar com sua consultoria em um mundo pós-pandêmico-apocalíptico. E, quem sabe, até realizar encontros presenciais.

“Tem uma coisa de trabalhar com a música no Brasil que te limita aos finais de semana. A galera do ao vivo tem que se virar durante os outros dias. Essa é uma parada que eu devo continuar, porque tenho um certo tempo livre. Sei que a retomada [de shows] não vai ser do dia pra noite”, avalia o músico.

As minas tão on

Dividida entre a mesa de som e o projeto musical Carabobina, a engenheira de som Alejandra Luciani, 29 anos, pode ser jovem na idade, mas é uma veterana no meio musical. Sua inquietação a respeito da ausência de mulheres no áudio fez com que ela criasse um grupo de estudos sobre produção musical só para elas. 

Ela reúne mais de 50 mulheres que participam desde julho de oficinas gratuitas duas vezes ao mês por videoconferência. Logo na primeira reunião, a venezuelana de Valência, hoje radicada em São Paulo, conseguiu se enxergar na fala das mulheres que relataram as complicações de serem vistas como pouco capazes no meio musical. 

“Eu fiquei sem expectativas porque não sabia o que esperar daquilo. Pude ver como elas ficam mais à vontade conversando com outras mulheres. Foi um negócio quase terapêutico”, diz ela.

Alejandra dialoga com cantoras, compositoras e até mesmo engenheiras de som como ela. O ponto-chave dos encontros é ouvir as mixagens de cada uma de suas estudantes e apontar o que está certo e o que pode melhorar. Sem titubear, ela diz que o espaço está aberto para mais mulheres, basta enviar uma mensagem para o seu perfil no Instagram.

“Para mim é muito gratificante ver tanta mulher fazendo suas próprias coisas. E eu fico com a vontade de mostrar tudo que tenho porque todas ali têm algo a oferecer. Eu só estou tentando humildemente oferecer a minha parte”, finaliza.

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