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David Pajo do Papa M conta como se preparou para o momento mais intimista da sua carreira.

Texto Fernando Dotta
Foto Rebecca Ruiz

Entrevista publicada pela primeira vez na quinta edição da Revista Balaclava, em novembro de 2019.

Fãs de rock alternativo produzido nas últimas duas décadas devem muito a David Pajo, gênio por trás do Papa M. O músico norte-americano foi um dos membros fundadores do SLINT, uma das bandas mais importantes da música alternativa – imprescindível para expansão do pós-hardcore e pós-rock. Durante os anos 1990, Pajo fez parte de grupos seminais como Stereolab, Royal Trux, Tortoise e Bonnie ‘Prince’ Billy. Nos anos 2000 em diante, se juntou a Billy Corgan no Zwan e realizou turnês como integrante do Interpol e Yeah Yeah Yeahs. Papa M é o mais recente projeto do multi-instrumentista, que vem ao Brasil pela primeira vez na décima edição do Balaclava Fest com o repertório de canções de seus trabalhos lançados.

SLINT é considerado um grupo fundamental e influente por muitos gêneros musicais em diferentes gerações. Como era fazer parte da banda naquela época?

A banda começou em 1986, depois do término de Maurice. Na época, a cena punk em Louisville era esotérica, não era estranho tocar em várias bandas ao mesmo tempo. Tocava bateria em um outro grupo ao mesmo tempo do SLINT, por divertimento. Sempre considerei o SLINT minha banda principal e prioridade. No entanto, meu senso de prioridade era declaradamente imaturo.

O que você costumava escutar quando era criança? O que grudou em você musicalmente que te fez começar a banda com aquele som esquisito do SLINT?

Blind Willie Johnson, Dinosaur Jr, AC/DC, The Smiths, Big Black, Mercyful Fate, Mekons, Jimmie Rodgers… A ideia de usar sons limpos de guitarra e menos daquele “rocking-out-24/7” começou a surgir. O desejo de fazer algo diferente, talvez uma frustração com o clima musical da época.

Touch & Go faz parte do grupo de selos que conseguiram desenvolver seu próprio estilo de som. Como era a sua relação com eles? 

Era o nosso selo dos sonhos, sem dúvidas. Eles rejeitaram o nosso primeiro álbum, mas, ao mesmo tempo, nossa amizade com o Corey Rusk evoluiu. Ele arriscou ao apostar no SLINT.

Hoje em dia, como é sua relação com a Drag City Records e como você vê a importância de um selo para uma banda?

Tenho sorte de fazer parte da família Touch & Go e Drag City. A maneira como eles enxergam o mundo me formou como pessoa e me ajuda a navegar o mundo da música. As bandas precisam ser muito cautelosas a respeito das pessoas que escolhem para lançarem suas músicas.

Você tocou com muitos músicos famosos e grandes bandas em sua carreira. Você tem uma lista de favoritos? Arrependimentos?

Não tenho uma lista propriamente dita. Cada banda me permitiu aprender mais de um jeito ou de outro. Mesmo as que foram mais desagradáveis. Tenho o sonho de tocar guitarra com a Billie Eilish. Ela é uma artista que eu e minha filha gostamos de escutar.

Depois de tocar em estádios, noites lotadas, festivais imensos… Como foi desenvolver um solo intimista, experimentar essa nova abordagem depois de tudo isso?

Vivi tudo isso, mas ainda fico extremamente nervoso antes de tocar. Mesmo se for para uma plateia de duas pessoas. Especialmente, os shows solo, intimistas. Sou melhor em fingir confiança. Prefiro tocar com outras pessoas, mas, inegavelmente, há uma pureza e uma franqueza diferentes em shows solo.

É mais fácil ser músico hoje em dia ou nos anos 1990?

Financeiramente, era mais fácil sobreviver quando as pessoas compravam discos. Claro, hoje em dia, existem maneiras de viver muito mais fáceis. Uma coisa que precisa ser notada: fácil não quer dizer melhor. Muitas vezes, o caminho difícil chega em resultados melhores.

Você segue e escuta novas bandas?

Estou sempre em busca de novos sons ou músicas que novas para mim. Meus favoritos de hoje em dia são bandas como Purple Mountains, The Walker Roaders, Billie Eilish. Também entram Mogwai, Sunnn O))), Karen O, etc.

Ainda tem contato com Britt Walford e Brian McMahan? Há possibilidade de outro reencontro do SLINT?

Falo com eles por mensagem de texto. Eles vivem em Louisville e estou a milhares de quilômetros de distância. Não há planos para um reencontro, mas eu disse isso algumas vezes e estava errado.

Novidades do seu projeto solo ou com outros músicos?

Estamos gravando novo material e, eventualmente, vamos fazer turnê com uma banda completa. Entrando na banda da Billie Eilish como guitarrista.

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