Faixa a faixa: Hierofante Púrpura lança o disco “Impermanências Lo-Fi Vol. 2”

O álbum de dez faixas é uma coletânea de bootlegs embrionários e 4 track demos, gravado no estúdio Mestre Felino por Danilo Sevali e Helena Duarte.

Texto Danilo Sevali
Foto Hierofante Púrpura

Lançada na terça-feira, 6 de julho, a coletânea “Impermanências Lo-Fi Vol. 2” faz parte de uma série da banda Hierofante Púrpura. Fundada em 2005 pela dupla Danilo Sevali e Helena Duarte, a banda possui uma dezena de lançamentos disponíveis nas plataformas de streaming e no Bandcamp. O primeiro volume do projeto saiu em maio do ano passado e ele surge de forma espontânea. 

“Queremos divulgar um processo encarado, muitas vezes, como minimalista ou que nem sempre dá as caras na discografia de uma banda. Em suma, essas demos oferecem aos ouvintes atentos o sopro de nascimento das composições, ainda em formato experimental, livres, ou até mesmo inocentemente descompromissado, puro como uma música impermanente deve ser”. 

Faixa a faixa “Impermanências Lo-Fi Vol. 2”

1. “Na Terra das Cartas”

Selecionamos ela para a abertura porque o climão flerta com o sentimento de presenciar um apocalipse, que significa (literalmente) uma descoberta. A referência primordial – momento cabeção –  foi uma película do cinema Bengalês, região entre a índia e Bangladesh, compondo uma livre interpretação viajada de “Tasher Desh”, filme dirigido pelo controverso Q. aka Qaushiq Mukherjee. Recortei e re-interpretei uma poesia que permeia todo o filme escrita pelo Rabindranath Tagore, tá passssssda?? Toda essa volta para dizer que sim, tem no Netflix, e mais, recomendo fortemente assisti-lo se anda sofrendo de insônia. Voltando pra música, ela pode ser sim bem barulhenta, dramática ou simplesmente caótica “…no alvorecer do apocalipse, um céu tenebroso olhará para baixo, e atacará com força…”. Com um tiquinho de redenção e mensagens sobre superação pessoal no final “…Vento forte sopra, prepare-se pra lutar…e superar…”. Sonoramente falando “Mother Earth’s Plantasia”, do Mort Garson, é o disco que se sintoniza bastante nos timbres de sintetizadores, que rasgam frequências na faixa desde o início. Para realizar, usei um velho guerreiro da Yamaha que “herdei” de um amigo no fim da adolescência. Entre nesse ritmo frenético.

2. “Anjos Anônimos”

Aqui já rola uma pira climática meio “Check Your Head”, disco de 1992 dos Beastie Boys, com um tiquinho de Quasimoto, o alterego do Madlib. Recheada de dubwise (manipulações de tempo e feedback do delay) e entrecortada por ruídos pique sound design criados pela Helena. A composição conta com temas que, por meio do pensamento acelerado, causa o indesejável efeito rebote nas nossas mentes – “acelerando e o tempo passando, afrouxe os parafusos que você mesmo apertou, os parafusos de sua cabeça”.  Fala também sobre sucumbir inevitavelmente (ou não) a certos transtornos mentais – “somos filhos mimados e vingativos, descontraídos e descontrolados, anjos anônimos, esquizofrênicos e catatônicos”. Essa sopa surreal de letrinhas, toda somada aos desenhos de sons criados na mixagem, contribuem com o lado mais sensorial e sugestivo da letra, melhor dizendo, com a crocância toda. Sonoramente, se resolve apenas com uma linha de piano acústico, pautada em acordes dissonantes com um beat minimalista loopado, e mais duas vozes em encontros e desencontros dentro da cabeça do ouvinte. 

3. “Aqui Temos Medo”

Surge a partir de um convite da cantora francesa Laure Briard. Ela nos chamou para compor uma canção para o seu projeto em português. Recebi uma demo, alguns versos escritos por ela e o título da faixa. Com esse material em mãos, acabei compondo mais uns dois ou três versos, que se tornaram uma nova música pro Hierofante Púrpura, pois ela não foi aproveitada no álbum de Laure. Na época (circa dezembro de 2018), o Brasil tinha acabado de entrar num processo de obscurantismo político com a ascensão de corruptos milicianos ao poder, em paralelo da injusta prisão do ex-presidente Lula, cenários e sentimentos que inspiraram os versos da composição. 

Sonoramente ela foi construída apenas com o auxílio do meu teclado Kurzweil (piano, cordas e órgão), e baterias jazzísticas sampleadas (e desaceleradas via pitch do gravador Tascam) de discos ao vivo do Thelonious Monk e do Thee Oh Sees, parcelinha post-punk da faixa. A dose extra do sentimento de psicodelia progressista atribuo a minha interpretação no momento de gravar a voz, sinto que é uma das letras mais bonitas e representativas do álbum “ao subitamente / na cabeça um tiro, um tiro de flores / as flores do alívio / elas me deram forças / moldei meu destino / te conto um segredo / já não tenho medo”. Uma espécie de manifesto sobre a coragem, intercalando com um gemido ou outro no falsetinho para emocionar ainda mais. 

4. “Bully”


A lembrança mais remota que tenho do nascimento dessa, é da Helena meio distraída tocando o riffzinho numa viola caipira sentada numa praça aqui de Mogi. Eu acabei me valendo desse arranjo para criar o restante da estrutura, transpondo da viola para a guitarra barítono da Danelectro que costumo usar. A letra tenta descrever o sentimento de uma pessoa que está sofrendo algum tipo de agressão e intimidação. – “Mais uma vez me sentindo humilhado / Já não posso mais ser tão triste assim / Busco desesperadamente seu olhar / Ou apenas seu toque”. Quem nunca sofreu, ou ainda sofre, com o bullying né? Uma visão em primeira pessoa verbalizando tudo o que sente, talvez a música mais melancólica do álbum. O título (apesar de literal, nunca é mencionado na letra) funciona pra pontuar esse cenário descrito, que evolui para um refrão mais épico, em que essa pessoa questiona até mesmo o valor da sua vida. – “Eu que não nasci para dar certo / eu que nunca nem nasci” . O contraponto se encontra na harmonia, que sugere acordes e ambientações mais etéreas e esperançosas, sugerindo até mesmo um certo rompante para se libertar desse trauma que pode ser irreversível.

5. “Tbm Sou Hipster”


Música pulsante mais esculachada e irônica (ou não) do disco. Nossa faceta derretida popzinha. É aquela máxima, ninguém é Hipster, mas existem muitos por aí. Esses dias, qunado conversava com um amigo, que já não falava há décadas, sem hesitar ele me perguntou: “Tu é Hipster?”. Eu só consegui responder: “Eeeeuuuuuu???”. Enfim, é a gastação eterna com esse termo que se transformou numa categoria de acusação, talvez por isso mesmo ninguém assuma que seja. Um jornalista que cobre a cena indie, definiu a música como uma “trombada de Beastie Boys com MF Doom aprontando algazarras em cima de um sample em loop de um disco da Tropicália. Tomem essa, Hipsters” – disco esse que herdamos da minha sogra. Amarrei tudo com uma letra simples que me veio no banho: “corpo são / com a mente meio balão / dando rolé de old school e calça moletom”. Na letra, ainda tem uma brisa de que quando eu era criança, minha família falava “ededrom”, ao invés do correto “edredom”, aí pra facilitar toda e qualquer coberta nesse moldes, a gente chamava de “futon” mesmo, e fora que a rima com essas palavras é bem divertida também. Eu queria ter cantado do jeito certo, mas o costume era tanto que saiu do jeito errado, paciência. Primeiro single do álbum.

6. “Floema/Fluxo”


Título inspirado no livro maravilhoso da Hilda Hilst, uma das prediletas da casa. Esse som começa com uma linha de piano que me sugere todo esse fluxo, um arpejo simples executado sucessivamente em cima de um acorde em lá sustenido menor. Convidei o camarada Garça Negra pra gravar um clarinete torto por cima e improvisei a letra na base do fluxo de consciência – “você não imagina, você não imagina / vire outra esquina / encare um novo você / que já ficou pra trás”. Na segunda parte, eu adaptei de um filme do Fellini, que é a carta de um pai de família, supostamente bem sucedido, cheio de princípios e moral cristã, que está prestes a tirar a própria vida – “a paz me amedronta / penso o que verão amanhã meus filhos / dizem que o mundo será maravilhoso”. O beat que pulsa ao fundo foi gravado numa plataforma online chamada -Sampulator- de maneira bem tosca tocada no teclado do computador. Penso que o importante é ser efetivo e fazer sentido na hora do play-rec, essa é uma das principais filosofias anti-puristas da gravações que realizamos, me traz um senso de liberdade e de que estou aproveitando a vida. Descobri só no fim qual era o significado da palavra Floema.

7. “Homem Cacto Na Terra do Fogo”

Essa é uma vinhetinha instrumental, gravada com um órgão nacional (todo arrebentado e com alguns cupins) da marca Gambitt º aqueles bem antigos, de móvel, uma pá de botão colorido e com dois andares de teclas. Esse órgão morou alguns anos em casa, porque veio como doação de uma igreja aqui de Mogi que havia adquirido um órgão novo para paróquia e precisavam se desfazer do antigo. Bingo! Dependendo de como você timbra as vozes e os beats dentro dele, o aparelho chega num som adorável de trilha sonora de videogames 8 bit, tipo o famoso Nintendinho. Sua sonoridade pode ser bem garage-psych-fritação, amo! O título é uma referência ao jogo Super Mario 3, principalmente aquele segundo mundo onde o bigodudo devorador de cogumelos mágicos se joga no meio do deserto de pixels coloridos, repleto de cactos dançantes ao redor. Aquela trilha me fascina desde a primeira vez que ouvi, eu devia ter uns nove anos. Gravei uma pandeirola por cima, mais uma vez apostei no beat eletrônico do Sampulator. Manda tudo isso pra fita cassete e a cremosidade analógica faz o restante do trabalho sozinha.

8. “Casulo 2020”


Releitura de uma das primeiras composições gravadas pela banda em meados de 2006, feita pelo Felipe Lima, integrante que praticamente fundou a banda ao meu lado. A maior faixa do álbum e a primeira que eu gravei de todo o compêndio. Foi o abre alas do projeto e pautou bastante as exigências para que as outras chegassem perto ou mesmo a superassem. Difícil saber se alguma delas foi uma coisa ou outra, mas o fato foi que depois dessa primeira, vieram mais pelo menos sete ou oito músicas. Gravei de um jeito meio torto, contrariando a ordem natural de sobreposições/ overdubs começando pela linha de piano. Toquei a bateria em cima desse piano gravado sem o metrônomo (prática que não é muito apreciada pelos parceiros das baquetas), gravei um violão de aço, um contrabaixo Danelectro, tecladinho Yamaha e por fim as vozes. Syd Barret como nosso muso inspirador, e mais alguns bauretes fumegantes nas ideias também. Digitalizamos as fitas (um salve pros cabos RCA-XLR) e finalizamos tudo no Protools, se valendo das maravilhas digitais e de seus plugins infinitos. O segredo está em abusar de todas as ferramentas em mãos, mesclar o melhor dos dois mundos. Analógico e digital num acordo super alto astral!

9.”Cyber Salsa”

Outra faixa instrumental do disco, criada com três vozes diferentes de um sintetizador modular gritante da marca Oberheim. A track acabou ganhando esse nome pois a batida eletrônica que acompanha toda a faixa, é batizada de “Salsa 03” e foi selecionada dentro daqueles extensos bancos internos de ritmos encontrados nos tecladinhos por aí, tipo aqueles que você ganha quando está aprendendo a tocar. Pelo menos pra mim, é curioso que esses ritmos nunca soam exatamente como a batida referida tradicionalmente deveria soar, mas é exatamente aí onde mora a magia do experimento. Mixei com bastante reverb, compressão e panoramas bem abertos para que ela soasse maior, com uma pulsação mais agressiva. Somado aos timbres furiosos do Oberheim, a faixa me sugere uma certa agitação eufórica, uma tensão e de quebra uma vontadezinha de dançar uma dança estranha, tipo uma cyber salsa mesmo. E como já diria a heroína feminista Emma Goldman: se não posso dançar, não será minha revolução.

10.”Vejo”


Para fechar o álbum, vem essa ode ao meu pai (falecido em 2013) e ao meu avô materno (falecido em 2015) com uma letra bem literal sobre enxergá-los no além e sentir que eles estão por lá, olhando por nós que aqui ainda estamos. Uma faixa sobre a saudade dolorida, sobre uma vontade louca de estar perto e poder abraçá-los. Considero que é a faixa mais lo-fi do álbum, com bastante chiado de fita soando no fundo (o que pra mim é uma delícia) e é bem provável que eu tenha gravado numa fita velha. Sinto que com esse tipo de ruído específico a música se desenrola num território real, quase palpável, diferente dos duros algoritmos 0 e 1 das plataformas de gravação digital. Não sou purista nem nada, adoro gravar e produzir no Protools e outras plataformas, mas talvez eu seja meio viciado nessa sonoridade das fitas cassete. Foi uma música gravada ao vivo e sem ensaio, first take, sem possibilidades nem tempo para um segundo take. Tem uma urgência ali que me cativa muito e permitiu que ela fosse selecionada para fechar o Impermanências Lo-Fi Vol 2, uma composição muito especial pra gente e pra minha família. E, ah…o riff da guitarra eu roubei de uma música do primeiro álbum do Pavement, foi mal ae Malkmus.