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Deize Tigrona: “A arte tem que ser compartilhada”

Artista carioca comenta sobre o retorno de “Sadomasoquista”, música lançada em 1999, a sua estreia como artista plástica em 2021 e a importância de continuar ocupando diferentes espaços.

Texto Gabriela Amorim
Foto Jeferson Delgado

 

O hábito de canetadas é uso que a artista Deize Tigrona exerce desde o final da década de 1990, quando adentrava o mundo do funk carioca emplacando hits como “Sadomasoquista”, “Eu esculacho” e “Injeção”. Com letras descomedidas, a cantora fez rimas enquanto abria espaço para mulheres no funk, sendo uma das pioneiras a falar sobre prazer e sexualidade no ponto de vista feminino no país.

Deize estreou como artista plástica em setembro deste ano, expondo a obra “Livro de Pau” na mostra “Vazar o invisível”, que ficou em cartaz no interior do Jockey, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Integrante da segunda turma da residência de pesquisa em artes do Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio, ela contempla novamente a arte de sua escrita após o hiato em sua carreira provocado por crise depressiva.

Depois de alguns anos no cargo de servidora na Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), a cantora colaborou em 2020 com Jup do Bairro na faixa “PELO AMOR DE DEIZE”, no álbum “CORPO SEM JUÍZO”, e na música “Odoyá” em parceria com Caetana. Deize agora retorna gradualmente a vida aos palcos, e se insere no universo das artes visuais com narrativas que mesclam ficção com suas próprias lembranças.

Em conversa com a Revista Balaclava, a artista compartilhou o processo de criação da obra ”Livro de Pau”, comentou sobre o lançamento da faixa “Sadomasoquista” nas plataformas digitais, reflexões sobre saúde mental, importância de ocupar lugares que foram negados e a confiança que sente nesta fase de sua carreira.

Qual foi a sensação de participar da mostra “Vazar o invisível”?


De início, eu fiquei bem animada, mas depois fiquei apreensiva e com vergonha. Durante a abertura na ARTRIO, andando pela exposição e vendo aquelas obras, eu fiquei pensando “Caraca, o que eu fiz?”. Apesar de ter a curadoria da Camilla e Raquel Barreto, achei que foi muita audácia minha porque é diferente quando você sobe no palco, canta, grita, fala e de repente você tira seu corpo de cena. E outra coisa é concretizar algo que estava na sua mente, com pessoas olhando a sua obra, pensando sobre sua exposição. Pensei mil coisas, porque também vem o medo, ainda pelo fato de ser exposto no Jockey Clube, mas quando eu vi a quantidade de gente que estava lá, de diferentes classes, notei a importância do que eu estava fazendo. Realmente fiquei menos preocupada, levantei a cabeça e fiquei pensando na pessoa que sou e no trabalho que eu desenvolvi.

Como foi o processo de criação da obra? 

Durante a residência do MAM, fui juntando as escritas da minha vida, como empregada doméstica, moradora da comunidade Cidade de Deus, cantora, e com o processo de leitura e literatura, fui desenvolvendo a minha escrita. A ideia inicial era fazer uma autobiografia, mas quando me vi arquitetando a história para o espaço que eu projetei, que seriam as portas, a minha história não iria caber ali. Não seria a hora e nem o momento, então pensei na história de um menino morador da comunidade. São fatos que eu vejo da janela da minha casa, com algumas experiências da minha vida. Depois na hora de montar a obra, pensei na reciclagem como um ponto importante, então fui procurar as portas em um brechó, e por elas não serem iguais, nem de tamanho, espessura, textura e cor, decidi envelopar as portas com folha de papel pardo e colocar a minha escrita.

Quais foram os desafios ao entrar na arte visual?

Eu escrevo desde criança, então o funk foi uma das portas de entrada, onde eu falava que queria ser artista, pensava em gravar EP, mas eu não me enxergava nas artes plásticas e nem nos museus. A arte e a escrita sempre esteve comigo, então migrar não foi tão complicado. Por exemplo, eu não pensava em desenvolver podcast como foi ao ar no MAM, muito menos em expor uma obra, porque eu não entendia esse universo e não imaginava que eu poderia expor uma arte feita com as minhas mãos. A diferença é que eu subo no palco, canto, levo minha voz, meu corpo e vou embora, hoje em dia já não mais. Só posso dizer que eu estou me surpreendendo bastante, sabe? Ainda me sinto acanhada, por estar nesses espaços, mas sei que eu tenho que estar lá, porque a arte tem que ser compartilhada.

Sua música “Injeção” foi sampleada pela rapper M.I.A e a faixa “Sadomasoquita”, lançada em 1999, foi remixada em 2015 pelo DJ André Pinho e agora, 21 anos depois, volta como hit em desafios de dança no TikTok. De qual modo é assistir essa reprodução do seu trabalho?

Minha mentalidade de hoje está tranquila, ao ver minha música tocar com vários artistas consagrados, me sinto feliz de ver a repercussão de estar tocando, a liberdade dos jovens em entender sobre relacionamento aberto, a liberdade do sexo, não só em quatro paredes mas os jeitos mais diversos, porém não foi nada fácil de estar centrada hoje em dia, a luta foi grande pela depressão que passei. Vejo a potência da letra em junção com a da Rihanna, no remix do André, mas é aquela coisa de ver vídeos no Youtube, alguns com 1 milhão de views, mas e a grana? Com a liberação do DJ Marlboro, podemos disponibilizar agora o videoclipe e o lançamento nas plataformas digitais.

No ano passado você fez algumas participações em músicas com Jup do Bairro e Caetana, atualmente tem algum projeto sendo preparado?


Muita coisa mudou de 1998 pra cá, o funk principalmente. Ter participado dessas músicas foi um respiro muito bom, porque devido a pandemia, eu achei que eu fosse voltar com a depressão com força, até porque eu peguei essa doença, mas o plano agora é não parar. Estou voltando aos palcos, já tomei as duas doses da vacina, sei que não está tudo 100%, mas tenho fôlego, força de vontade, coragem e muita escrita para continuar, sinto que o futuro está realmente chegando.


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