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Como foi escrever essa música? Lay, Jadsa e Sophia Chablau respondem

Em um ano espetacular para a música brasileira, convidamos as três artistas para compartilhar o processo de composição de algumas faixas que não pararam de tocar por aqui.

Texto Isadora Almeida
Foto Juh Almeida

Em um ano espetacular para música brasileira, você consegue pensar em um top 3 faixas favoritas? Essa pergunta não tem uma resposta exata. São abordagens, recortes e histórias completamente diferentes, apresentadas nas milhares de faixas que invadiram o cenário musical brasileiro. Do R&B ao Pagodão, Funk ao Trap, Rock a Eletrônica, não faltaram belos sons para embalar o difícil ano de 2021.


Três músicas que não saíram de nossas playlists por aqui foram: “Sonho da Lay”, do trio curitibano Tuyo, “Delícia/Luxúria” da banda paulistana Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e “Lian” da compositora, multi-instrumentista e cantora baiana Jadsa.

Cada composição orbita um universo íntimo por diferentes razões. Seja um sonho, que nos faz questionar o limite da realidade, a luxúria de um encontro alinhada daquela pegação no carro ou até mesmo uma homenagem delicada e transformadora. Para entender o que há por trás da canção, perguntamos para Lay, Sophia e Jadsa: “como foi escrever essa música?”.  

Tuyo – “Sonho da Lay”

Lay: “Foi muito gostosa de escrever, lembro que era um momento em que eu escrevia tudo que sonhava em um caderno para poder revisitar. Esse sonho me marcou porque era um daqueles que são reais demais e você acorda meio sem saber se era sonho ou memória. Deixei ele guardado por um tempo até que o Machado mostrou um beat que tinha feito, uma estrutura que nasceu das pesquisas dele, e eu amei muito! A gente colocou o nome da pré de “música filme”, antes mesmo de saber qual seria a história que iríamos contar. Parecia mesmo uma trilha sonora de um filme de ação, um filme de mexer com a cabeça de quem assiste. Acho que por isso, quando a letra entrou junto, pareceu que as duas coisas tinham sido feitas ao mesmo tempo: letra e canção. Quando ela ficou pronta, já tinha passado por mim, pelo Machado e pela Lio, senti que ela já estava dizendo mil coisas sobre movimento, deslocamento, a memória que se constrói quando se sai de um lugar. Foi gostoso ter ela pronta e, quando o Luccas Carlos veio para somar, senti que o que precisava ser dito foi dito, o ciclo fechou. A princípio, rolou um medo de não conseguir ver ela encaixada no disco, mas vendo depois tudo pronto, enxergo que “Sonho da Lay” alonga o discurso sobre o que é a nossa ideia de lugar. O lugar dentro da gente, o movimento geográfico que também acontece dentro de mim. A carona no caminhão, indo para algum lugar e o fato de investigar se aquilo era memória do que eu vivi acordada ou uma memória do que eu construí dentro da minha cabeça, sabe? Enfim, ela é uma canção especial pra mim”.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo – “Delícia/Luxúria”

Sophia Chablau: “Escrevi essa música no meu quarto. Fiz uma progressão de acordes e cantei uma melodia, meio do nada, aquela coisa que não é nenhum pouco premeditada. Lembro de mandar uma mensagem pra Aninha (Ana Frango Elétrico) perguntando se ela tinha alguma coisa escrita, ela me mandou uma frase “a vibração do motor do carro me excita”, algo assim. Eu na hora já comecei a escrever a letra. Foi meio pá-pum, eu estava totalmente numas de tesão, carros, pecado e o resto de coisas todas, que quem sabe, sabe. Tive uma brisa louca de som e sexo, principalmente na parte ‘você me deforma como qualquer som que invade os meus ouvidos – ou pulsa no cerne de cada ser um tema inaudível’, porque é um fato: o som deforma a matéria por ser uma vibração. Aí teve um dia que estava com um amigo e a gente ficou viajando no tema musical do coração da gente, porque uma batida ritmada se acelerada algumas vezes vira uma nota e se temos oscilações de velocidade a nota então se torna mais grave ou aguda, ou seja uma vida inteira produz uma certa melodia inaudível. E ao mesmo tempo que o coração divide uma nota em pulsações, por ele pulsar dentro da gente já está deformando nosso corpo o tempo todo. Enfim, fica também a licença poética porque eu sou uma nulidade em física e biologia. Em resumo, foi um tesão escrever essa música.

Jadsa – “Lian”

Jadsa: “Escrever Lian foi revolucionário. Todos os lugares que eu ia em 2018 estava tocando a Luiza (Lian). Essa faixa surgiu como um agradecimento a distância pra Luiza, já que eu nem conhecia ela, nem sabia onde ela circulava, não conhecia ninguém muito próximo. Então ‘Lian’ foi uma reza de mim pra mim mesma em agradecimento a Luiza Lian. Surgiu na verdade com um baixo que eu gravei com o Caio Terra. Era um single, a gente lançou no YouTube como voz, violão e baixo. A letra – “busquei, escutei, cantei, dia” – chegou antes. Eu estava no banheiro da Casa Vulva quando me olhei no espelho com Luiza Lian tocando atrás e comecei a cantar. Fui decupando tudo isso dentro do banheiro. Foi bem rápido. Ela não foi feita especialmente para o álbum, mas depois de convidar a Luiza para cantar foi como uma concretização de que a música tinha dado certo. Além de que ela virou uma grande amiga minha. A parte que ela canta, eu queria que fosse como um deboche da minha cara. Ela canta: “sua voz é boa, mas quem canta sou eu”. Frase que está em ‘Mira’, minha música favorita da Luiza.”

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