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Bruxa Cósmica: “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans, então o Ballroom necessita ter consciência social”

A performer, coreógrafa, cantora e compositora foi nomeada como a primeira Legendary Mainstream da América Latina pelo Icon José Xtravaganza, e se prepara para lançar o primeiro disco no ano que vem.

Texto Ana Laura Pádua
Foto Josias Lunkes 

Bruxa Cósmica possui uma longa história com a música. Aos 23 anos, a artista foi nomeada a primeira Legendary Mainstream da América Latina pelo Icon José Xtravaganza. A performer, coreógrafa, cantora e também compositora começou a sua relação com a música pela sua família “animada, festiva, que amava cantar e dançar”, como ela mesma descreve. Com o pai músico profissional de cerimônia, bares e casamento, ela o acompanhou em tudo, fortificando ainda mais esse laço. “Minha primeira composição foi um hino que fiz com 7 anos sobre o Rei Davi, à medida que fui crescendo fui me distanciando desses espaços que permitiam cantar e fui focando mais na dança, nas academias de dança da minha cidade, no interior de Minas Gerais”, conta Bruxa Cósmica. Apesar dessa história ser repleta de muita música e animação, nem tudo são “festas”. Aos 9 anos de idade, a artista se descobriu lésbica e foi afastada de todos os lugares que a possibilitaram o espaço de prática e aprendizado. “Hoje eu vejo que foi muito importante pra mim. O afastamento me permite recordar todos os dias do porquê estou aqui. Não quero apenas ser uma artista que canta e dança bem, a mensagem por trás da minha arte é muito profunda e eu venho descobrindo desde a infância quando tudo se fechou pra mim, por conta do preconceito, da homofobia, da cisheteronormatividade que não me cabia e não me cabe. Especialmente onde nasci, esse comportamento de preconceito e opressão é normalizado”.

Desde o final do ano passado, lançou três singles: “Céu Vermelho, “Boicote”, e “Witch Cxnt”, esse último com produção de EveHive e Badsista, e lançamento pelo selo do Brasil Grime Show. Em conversa com a Revista Balaclava, Bruxa Cósmica compartilha a importância da cultura Ballroom no Brasil, comenta a relevância do estímulo coletivo e o que podemos esperar do seu primeiro disco. 

Qual lado da música você mais gosta de explorar? Por quê?

A escrita, a potência da melodia e a forma de dizer palavras que no dia a dia não seriam ditas. A música funciona pra mim como um espaço de liberdade pra falar, assim como a dança, muitas vezes não sabemos ao certo as palavras mas através da melodia, encontramos. 

Você é reconhecida internacionalmente como expoente do Ballroom. O que você acha que ainda falta para o Brasil investir socialmente nessa cultura?

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans, são mais de 200 por dia, então com esses números, o Ballroom necessita ter uma consciência social. Acredito que a cultura, a dança e a arte têm força e são instrumentos de transformação, mas a realidade das pessoas trans e travestis é outra, é de morte, causada principalmente dentro de casa. Eu sei o que é ser perseguido dentro de casa, não ser aceito. É muito difícil o Brasil investir socialmente nessa cultura se atualmente os nossos representantes querem justamente o extermínio. Ter pessoas no governo que nos representa é o começo, ainda somos minorias em espaços de poder público, precisamos de mais pessoas trans e travestis que falem em nome da comunidade em espaços de gabinetes jurídicos.

Em outubro deste ano você participou de uma ação da Fanta no Dia das Bruxas. Qual é a sua relação e experiência como atriz? Como foi contracenar e fazer o papel principal?

A interpretação mexe muito comigo, o teatro sempre fez parte da minha vida e estar retornando na atuação agora para uma câmera me faz completa. Os clipes são meu espaço de criação, eu já participei de muitas publicidades e é sempre uma honra ficar responsável em passar a energia/a mensagem de algum personagem, marca, obra. Contracenar é sempre um jogo de presença, olhar e ação. É minha paixão assim como dançar e cantar, e a trindade artística que essas três expressões são capazes de fazer juntas é o que mais me motiva a continuar praticando e estudando. Gosto muito de ler, escrever, entender o roteiro e criar o corpo, a atitude, o sentimento do personagem é o que mais me fascina em ser atriz.

Você representa a House of Xtravaganza no Brasil e América Latina. Quais são os maiores desafios que vocês ainda enfrentam? Como foi e como está sendo para vocês enfrentando uma pandemia?

O maior desafio é ter um espaço para criação. A Ballroom não tem um espaço físico, quando vamos organizar batalhas ou apresentações, precisamos estar indo atrás de espaços culturais, teatros e ocupações e, com a pandemia, todos os espaços se fecharam. Vivemos a internet como possibilidade de produção, mas a maioria das pessoas da comunidade não tem acesso pra ficar em home office, precisa de suporte, como vaquinhas, cesta básica, rede de apoio para conseguir trabalho. É muito dura a realidade para nossa comunidade Ballroom e a pandemia trouxe urgência em transformar a nossa realidade

Qual a importância da troca de conhecimento e estímulo coletivo?

É uma urgência social, compartilhar conhecimento que estimule outras narrativas, outras histórias e o respeito por distintas realidades. O conhecimento liberta e dá um caminho. Se compartilhamos conhecimento, compartilhamos esperança e possibilidades. A era digital é feita para esse momento, onde nos inspiramos em coletivo, para construir nosso eu – indivíduo e identidade

Como surgiu a ideia do seu nome Bruxa Cósmica?

Surgiu da minha relação com a espiritualidade e dos resgates ancestrais da minha família paterna, com as ervas, a terra, a cultura da tribo xacriabá. Buscando olhar pro futuro e pra espiritualidade autônoma, encontrei na Bruxaria um espaço para anarquizar conhecimentos e ritualizar meus próprios dogmas e necessidades.  O cosmos está em tudo e tudo faz parte do cosmos, o espaço cósmico é a realidade junto à matéria, à vida, à ciência. Isso é a natureza e nós somos a natureza, não podemos separar a matemática dos órgãos, não podemos afastar as leis físicas do nosso dia a dia, a geografia, o campo magnético tudo é vida e não pode ser ignorado. Infelizmente, com a educação que temos, raramente alguém vai se interessar em se aprofundar nesses assuntos, então, com a minha arte, quero espalhar esses conhecimentos. Sou a Bruxa Cósmica, manipulando sistemas, hackeando ideias e estimulando vidas através da observação da natureza, das estrelas, pelas cartas (de tarô), pela mão (quiromancia), pelo conhecimento, através da minha arte.

Como você define a sua arte?

Arte para o futuro, que salva o presente e resgata o ancestral. 

Além de compositora, você também é dançarina. Qual a importância do adicional performático na música?

A música cria o ambiente, a dança, o corpo e a transmissão de tudo isso é a atuação. Não vejo como fazer uma coisa ou outra pra entregar o que quero, preciso pensar tudo, no som, na imagem, na dança, na atuação, etc.

Qual dica você daria para alguém que gostaria de entrar para o mundo do Vogue e Ballroom?

Que antes de tudo esteja disposto a se conhecer, a se aprofundar no seu autoconhecimento e de se colocar à prova. O Vogue e a cultura Ballroom são transparentes, se você ainda não está onde pensa, a comunidade, as categorias quando você for caminhar, vai te mostrar que você ainda não está pronto, é preciso humildade para ganhar espaço e, principalmente, confiança em si mesmo pra não desistir. Essa comunidade se trata de resistência e muito trabalho, trabalho em si mesmo, na vida. Dar o melhor nem sempre é confortável e aprendemos muito sobre isso, é uma filosofia de vida que transforma e evolui muito o ser humano. 

O que podemos esperar do seu primeiro disco?

Muita letra, graves e elegância. Em 2022 está na pista pra gente dançar!

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