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6 artistas para conhecer a atual paisagem global do grime e drill

Escute e acompanhe o trabalho de Bruno Kroz (Brasil), Yaw Tog (Gana), Skinny Flex (Espanha), Gazo (França), Loraine James (UK) e Softboy Violet (UK).

Texto João Victor Medeiros
Foto Divulgação

Descrever um gênero musical pode ser um pouco duro às vezes, principalmente quando a coisa ainda está em processo de maturação. No começo dos anos 2000, o próprio grime lutou para encontrar sua definição. Na verdade, os mais interessados na questão eram os jornalistas musicais, enquanto os MC’s apenas seguiam o “eskibeat” criado por Wiley, o padrinho do gênero no Reino Unido. Através de atos como o Brasil Grime Show, o gênero britânico descendente de UK Garage e Jungle explodiu em terras tupiniquins nos últimos anos, inflamando discussões sobre sua relação (ou não) com o rap.

Diferente dos britânicos, os MC’s de grime no Brasil tem uma necessidade fervorosa em definir o gênero, no que parece uma tentativa de se separar dos rappers. No fim, as pessoas querem uma coisa que possa ser facilmente reconhecida porque as dá uma sensação de pertencimento — a questão é que esse purismo cria cercas ao redor da criatividade. Em paralelo, o rap se torna cada vez mais inescapável, deixando suas influências na música pop e até no forró, e artistas de grime como Skepta, Dave e Stormzy têm frequentemente adotado influências do gênero americano em seu próprio som.

Nesta pororoca entre Inglaterra e Estados Unidos se localiza o UK Drill. Originário de Chicago, o drill foi importado para Londres e ganhou uma nova cara, influenciado pela música eletrônica do país europeu, mas conservando uma sonoridade próxima ao trap americano. Enquanto o grime criou sua própria cultura na Inglaterra através de festas em galpões e batalhas em rádios piratas, o UK Drill se espalhou ao redor do mundo após o sucesso de Pop Smoke, enquanto ainda se molda no underground. Hoje apresentamos 6 novos artistas para conhecer a paisagem global dessas sonoridades.

Bruno Kroz (Bahia) – Grime

Bruno Kroz e ANTCONSTANTINO se encontraram através das seletivas para o Brasil Grime Show, quando o produtor de Caxias (RJ) ainda fazia parte do projeto. Em Ameaça Detectada, o MC soteropolitano define um novo patamar a ser alcançado nos lançamentos de grime no Brasil. Com produções de Enigma, Meio Feel, BBzão, Colas, Matesu e do próprio ANTCONSTANTINO, Bruno Kroz demonstra maestria desde a marcação mais clássica do gênero britânico na faixa-título até os tambores frenéticos de “QUEBRANDO E AMASSANDO”, com forte influência da umbanda e candomblé. Sem perder o ritmo, nunca tropeçando nos flows que ousa fazer e acima de tudo, rimando bem, Bruno Kroz é grata surpresa e uma jóia no grime brasileiro.

Yaw Tog – TIME (Ghana) – Grime/Drill

Ghana tem hoje uma das cenas mais fortes de drill ao redor do mundo. Lá, o sub-gênero ganhou também o apelido de Asakaa, uma interpolação de “Saka”, gíria falada por jovens da cidade de Kumasi. “Saka” vem da palavra Twi, “Kasa”, que significa “falar”. Em tradução para português livre: dar o papo reto. Entre os rimadores do país, um garoto se destaca. Yaw Tog, de apenas 18 anos, explodiu na cena do país após o lançamento da posse cutz “Sore” (“Erguer-se” em Twi). O sucesso da música foi tão grande que ganhou um remix com participação de Stormzy, notável MC britânico de grime que foi até Ghana gravar o clipe com os “Asakaa Boyz”. Em 2021, Yaw Tog lançou “TIME”, seu EP de estreia. 

Skinny Flex (Espanha) – Drill

A #spanishdrill no YouTube já é realidade e encontra em Skinny Flex o seu principal expoente. Ainda sem disco lançado, o MC acumula milhões em cada faixa que lança, sempre com clipe. Os visuais cumprem papel essencial na fomentação do drill na Espanha, compartilhando da estética do sportlife e dos conjuntos habitacionais de outros países da Europa e também do Brasil, sempre com forte presença de imigrantes dominicanos, árabes e africanos, principalmente do Senegal. A dançante “Annabelle”, lançada há dois meses e com mais de 2 milhões de visualizações, abre o leque de sonoridades de Skinny Flex e o coloca junto a El Patron 970 e Nickzzy como os nomes mais relevantes do drill feito em espanhol.

Gazo (França) – Drill

Drill FR, a mixtape de estreia de Gazo evidencia seu propósito logo no título: é drill da França (FR), e é drill “for real”. O trampo chega após uma série de singles impactantes e, em suas 15 faixas, explora diferentes idiomas e influências sonoras para criar um projeto de drill que soa denso, permitindo que Gazo ultrapasse a fronteira de seu país. Drill FR conta até mesmo com a participação dos britânicos Unknown T e Pa Salieu, representando o puro lado leste de Londres e a diáspora africana na Europa, respectivamente. A entrega de rimas do rapper somado a seu flow o torna capaz de sugerir diferentes nuances emocionais, fazendo da mixtape acessível e aprazível para qualquer fã do gênero ao redor do mundo. Não à toa, Gazo é chamado de Príncipe do Drill Francês.

Loraine James (UK) – UK Garage, dub, grime, house

Se os rimadores acabam por polinizar os gêneros ao redor do mundo, é na experimentação dos produtores e DJ’s de música eletrônica que ocorre a germinação de novas abordagens de grime e drill. Em 2019, a produtora Lorraine James fez sua marcante estreia com o disco For You and I, responsável por apresentar toda a sua paleta imaginativa dos mais diversos sub-gêneros, do UK Garage ao dub, passando, claro, pelo grime. Em seu novo disco Reflection a produtora adiciona vozes (de colaboradores e de si mesma) para criar uma viagem sônica, numa versão mais profunda, refinada e por vezes minimalista de seu primeiro trabalho.

Softboy Violet (UK) – Experimental

Presente na última faixa de Reflection, de Lorraine James, Iceboy Violet é um produtor que se apropria da energia, euforia e força combativa do trap e drill para ressignificá-las, desafiando os conceitos de heteronormatividade e masculinidade tóxica, por vezes presentes nestes gêneros. Em Drown to Float, Softboy Violet sobrepõe ambiências atmosféricas em faixas de rappers como Young Thug e o driller Lil Durk, criando uma experiência quase catártica. A sensação de ouvir essas novas e expansivas ambiências abafando músicas conhecidas do rap mainstream soam como um sonho lúcido, do qual você tem familiaridade, mas ao mesmo tempo está em um terreno desconhecido e vazio.

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